''Somos parte de uma corrente que conecta a Terra ao resto da galáxia''

Chandra Wickramasinghe, diretor do Centro Cardiff de Astrobiologia

Entrevista com

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

"A panspermia não é apenas possível, ela é inevitável", diz o matemático Chandra Wickramasinghe, diretor do Centro Cardiff de Astrobiologia, da Universidade Cardiff, na Grã-Bretanha. Um dos pioneiros da teoria, ele conversou com o Estado sobre vida no universo.

Quais são as evidências à favor da panspermia?

As evidências vêm da biologia, da astronomia e da geologia. Os dados biológicos mostram que o surgimento da vida numa poça d"água da Terra não é plausível. É necessário um sistema conectado de matéria que se estenda por grande parte do universo. Os dados astronômicos sobre moléculas orgânicas no espaço são melhor explicados como detritos de bactérias. Considerando que a transformação de não vida em vida é quase impossível, é muito mais provável que a vida tenha se espalhado de um único ponto onde se formou pela primeira vez do que tenha se formado várias vezes em diferentes lugares. Já a geologia nos diz que a primeira evidência de vida na Terra é de 3,8 bilhões a 4 bilhões de anos atrás, quando o planeta estava sendo pesadamente bombardeado por cometas.

Não há nada que impediria a ocorrência da panspermia? Algo que a ciência ainda não provou ser possível?

A panspermia seria inibida apenas se bactérias fossem tão frágeis que não conseguissem sobreviver à viagem espacial dentro de um sistema solar. Há uma fartura de evidências que contradizem isso. Os dados brasileiros são mais uma confirmação de que certas bactérias são resistentes à radiação cósmica.

Ainda que a panspermia seja possível, como podemos saber se ela ocorreu de fato aqui?

O fato de a vida ter começado 3,8 bilhões de anos atrás, numa época em que a Terra era bombardeada por cometas, é uma indicação forte de que cometas trouxeram vida para cá. Nesse caso, seria possível mostrar que cometas em órbita ainda carregam vida microbiana, e que micróbios continuam a ser introduzidos na Terra por cometas até os dias de hoje.

Onde, então, teria surgido a vida? Em outro ponto do sistema solar, da galáxia, do universo?

Acredito que a galáxia inteira é uma biosfera única, interconectada. Genes microbianos são continuamente intercambiados entre sistemas planetários. Assim, a evolução darwiniana ocorre em escala galáctica. Somos parte de uma corrente que conecta a vida na Terra aos lugares mais distantes da galáxia e também além dela. Nossos ancestrais genéticos ainda se escondem entre as estrelas.

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