Matt Rourke/AP
Matt Rourke/AP

Somos todos o homem da multidão

Que seria uma mente doentia? A mente sadia é incapaz da crueldade?, filosofa escritor policial sobre o atentado

MÔNICA MANIR, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 16h00

O décimo-primeiro romance policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza* chega aos finalmentes. Mas ele assume que se encontra em reticências. Quando pensou que o último capítulo seria o definitivo, abriu-se mais um. Três pontos, porém, faz questão de repetir nessa sua saga: o delegado Espinosa, a cidade do Rio de Janeiro e um personagem comum. O homem da multidão.

"Nas grandes cidades, os passos dos criminosos se perdem", justifica o ex-professor da UFRJ, que escreveu oito livros sobre filosofia e psicanálise antes de decidir, aos 60 anos de idade, que sua praia seria o enigma do assassinato. Garcia-Roza não tem muito apreço pelo mundo cartesiano. Prefere as ambiguidades, as sombras, os cantos ocultos. Daí que o atentado em Boston lhe pareceu perscrutante desde o início, na concentração de gente na maratona, até a morte de um suspeito e a prisão do outro, que foi onde parou esta entrevista.

O escritor carioca centra suas exclamações num ponto-chave, que independe do desfecho do caso: a mente de um criminoso não é necessariamente doentia. Ou, literalmente por outro lado, uma mente sadia é capaz de crueldades, sim. "Não há o Bem e o Mal, mas apenas o bom e o mau, ambos humanos, demasiadamente humanos." Tampouco alivia o inconsciente: "Os sonhos de cada um de nós são o que há de pior em termos de delinquência". Batendo nessas teclas ele nos envolve em mais uma trama, ao mesmo tempo real e profundamente entremeada de traços de ficção.

Lógica de bombardeio

"Não vejo muita diferença quanto a se tratar de um evento esportivo ou da inauguração de uma grande casa de espetáculos ou mesmo de um comício político. Seria diferente se na maratona (ou no comício político) uma pessoa determinada fosse o alvo visado e um atirador escondido no interior de um dos prédios o atingisse. Claro que no caso da maratona o alvo poderia ser o prefeito, o governador ou a promotora do evento. Mas o autor do atentado não deixou nenhuma indicação quanto a isso. A lógica do autor do atentado é a mesma do autor de um bombardeio aéreo: não visa a ninguém em particular, o alvo não é uma singularidade, mas um aglomerado (o maior possível) de pessoas.

Os sem rosto

"A multidão dilui a singularidade das pessoas e, quando faz isso, fica essa multiplicidade sem cara, sem rosto, às vezes sem sexo. A polícia investigativa criminal só começou com o surgimento das grandes cidades justamente porque aí você tem as multidões. Walter Benjamin já disse: "O conteúdo social originário do romance policial é a perda das pegadas de cada um na multidão da cidade grande". Benjamin se referia a uma época em que Paris era uma metrópole fantástica, mas sem nenhum dispositivo eletrônico. Uma multidão era realmente o lugar onde você se perdia. Hoje existe um aparato pan-óptico fantástico ao qual se pode recorrer. Dificilmente uma pessoa escapa desse controle. E sabe-se lá se os investigadores contaram com os celulares, esse aparelhinho infernal que foi feito para escutar e depois descobriram que tira foto. Não tem escapatória mais. Fica difícil fazer romance policial.

A fera interior

"Se um ataque terrorista é necessariamente produto de uma mente doentia? Essa é uma questão delicada. O que seria "uma mente doentia"? Invertendo a pergunta: só uma mente doentia seria capaz de tamanha maldade? Uma mente sadia é incapaz de crueldade? O Mal é uma doença e a maldade o seu sintoma? Durante séculos nos ensinaram que o homem é essencialmente bom. Mesmo porque, para grande parte do mundo ocidental, ele foi feito à imagem e semelhança de Deus, seu criador. Crescemos acreditando que o mundo continha nele próprio o Bem, e que o homem como parte desse mundo reproduzia na sua interioridade o Bem inerente ao mundo. Imaginemos um grande círculo no interior do qual colocamos o Bem. O Mal "habitaria" o exterior desse círculo, seria o outro, o além-muros, o além-fronteiras, a escuridão infinita, o silêncio eterno, a exterioridade pura ou o puro outro. Seria representado no nosso imaginário como o estranho, o estrangeiro, a peste, o monstro assassino. O difícil é admitirmos que o Mal e o Bem possam ambos ser frutos do próprio homem: não há o Bem e o Mal, mas apenas o bom e o mau, ambos humanos, demasiadamente humanos. A partir da eliminação dessa linha que circunscreve, separa e isola o Bem do Mal, a fera e o assassino passam a habitar a nossa própria interioridade – assim como habita o alívio quando saem milhares de policiais à caça de um suspeito para evidentemente matá-lo. A pessoa nunca admitiria que houvesse um fuzilamento público. Mas aí vai descobrindo que aquilo é confortável porque ela faria aquilo daquele jeito, mesmo sem consciência.

A vítima universal

"Um atentado como esse de Boston nos afeta pela mesma razão que somos afetados pelo terremoto da Nicarágua, pelo tsunami da Tailândia, pelo ataque às Torres Gêmeas de Nova York, pelo Holocausto, pelas guerras fratricidas da África. Porque as vítimas são nossos semelhantes; somos afetados individualmente por identificação e coletivamente enquanto humanos, embora nada de parecido tenha acontecido conosco, em nosso país. Além do mais, alguns desses acontecimentos acompanhamos ao vivo pela televisão no instante em que ocorreram, como o ataque às Torres Gêmeas. Foi como se estivéssemos olhando pela janela. O choque do segundo avião nós o sentimos no momento em que ele se deu, ou nos segundos que o precederam. Na Maratona de Boston, não podemos esquecer que dezenas de brasileiros participavam da corrida e outros tantos, parentes e amigos, assistiam. Milhares de brasileiros moram em Boston. Somos afetados, apesar dos 8 mil quilômetros que nos separam. Assim como o fantasma de Hiroshima nos afeta até hoje.

A humilhação

"De fato, a humilhação tem um papel central na explosão de diversas formas de violência, entre elas o terrorismo, como afirmou a psicóloga alemã Evelin Lindner. A humilhação diminui a potência humana: potência de pensar e potência de agir. O sujeito torna-se sujeitado. Aquilo que marca a condição humana (o sujeito em ato) cede lugar à satisfação da necessidade (o comportamento animal). Quando esse limite inferior da potência humana ameaça se romper, quando o ato (efetivação do sujeito) corre o risco de ser reduzido à domesticação animal, pode ocorrer a explosão de diferentes formas de violência. É como se o homem, ao chegar próximo do seu ponto de entropia, explodisse para dar início a uma nova ordem.

O anonimato

"Um atentado não assumido por seu agente ou cujo autor não é descoberto pode perder o estatuto de atentado. Pelo seu efeito devastador, ele precisa de um autor, um Whodunit (who done it?, quem fez isso?). Caso esse autor/agente permaneça desconhecido, ele pode tanto ser referido a uma exterioridade imaginária e demonizado como pode ser referido à interioridade. O agente pode ser não o outro exterior, mas o próximo, o semelhante, o vizinho ao lado. Mas essa interiorização do exterior só será possível se a linha que separa o Bem e o Mal, o Interior e o Exterior, for removida ou eliminada.

Saturação

"A exibição repetida das explosões em Boston e toda a atenção da mídia em torno delas acentua num primeiro momento a sordidez do terror. Mas, se essa exibição se torna excessiva, ela tende a saturar a percepção do telespectador e mudar seu foco de atenção para outros aspectos afastados do atentado propriamente dito, assim como o relato repetido de um evento tende a eliminar a carga emocional (triste ou alegre) do fato narrado.

Os suspeitos de costume

"Se, num primeiro momento, há uma tendência a punir "com todo o peso da Justiça", há igualmente o risco de uma busca frenética de "culpados" cometer excessos e injustiças irreparáveis. Num primeiro momento, não passou pela cabeça de ninguém (ou de quase ninguém) que o autor do atentado pudesse ser um cidadão americano, isto é, pertencente ao interior, ao círculo do Bem, daí a tendência quase imediata de se procurar o criminoso na exterioridade, isto é, extramuros, o estranho, o estrangeiro, o vizinho muçulmano, o exterior mais à mão. Caso o autor (o Mal) não fosse encontrado na exterioridade, a busca se voltaria para o interior, para o íntimo, o familiar, a casa, o quarto fechado. O resultado disso poderia ser a angústia, em lugar da paranoia.

A caça

"A partir do momento em que se estabelece que aquele ou aqueles sujeitos são culpados, eles passam a ser, além de culpados, extremamente perigosos. Se são extremamente perigosos, devem estar muito armados. E, se estão muito armados, você vai chegar atirando. Forma-se um grande esquadrão de execução, típico dos grupos que saem para caçar. De certa maneira, falando de forma figurada e generalizando um pouco, toda noite saímos fazendo isso nos nossos sonhos. É quando liberamos esse monstro interior, esse recalcado. Os sonhos de cada um de nós são o que há de pior em termos de delinquência. A rigor, se o sonho é dominantemente agressivo, matamos gente ou matamos seres que estão no lugar de gente. Somos caçadores em potencial. De modo que, quando se instaura uma perseguição desse tipo a um suspeito, é como se essa licença para matar passasse a valer quando estamos acordados. Aí a chance do outro é mínima.

O herói

"A imagem da cidade enclausurada reflete o pavor do monstro. Tem um monstro solto na rua: fechem as portas, tranquem as janelas. Ora, e aí? Vai ficar todo mundo preso e o monstro lá fora? Não, tem que acabar com esse monstro. Daí os heróis policiais, individualizados numa corporação. Triste do país que precisa de seres idealizados. Os seres humanos normais não conseguem dar conta da situação que eles mesmos criaram? O herói é um ser excepcional, é um super-homem. Mas não precisa de heróis. Precisa de eficiência."

PONTO POR PONTO

*LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA

Escritor e psicanalista, autor de livros de ficção policial, entre eles 'O silêncio da chuva'

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