Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

SP investe no cultivo de viníferas

Estado também quer ser reconhecido pela alta qualidade dos seus vinhos. Colheita em pleno inverno é diferencial

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2009 | 03h20

São Paulo pode ter, no próximo ano, sua primeira safra comercial de vinho de alta qualidade. Isso será possível graças ao investimento de alguns vitivinicultores no plantio de variedades viníferas, como a syrah, e de alguns híbridos de qualidade vinífera superior, como a máximo (IAC 138). Para atingir a qualidade ideal, foi preciso adotar manejo diferenciado das videiras, como a colheita agora, em pleno inverno. A colheita fora da época normal já vem sendo testada desde 2001 em Minas. Mas esta é a primeira experiência em São Paulo.

"Estamos experimentando esta técnica para melhorar a qualidade do vinho paulista e incentivar produtores a investir em variedades viníferas", diz o presidente da Associação dos Vitivinicultores de Valinhos, Nivaldo Tordin, que se juntou a seis produtores de vinho para plantar o próprio parreiral, em Indaiatuba (SP). "Resolvemos produzir nossa uva porque tínhamos dificuldade em comprar fruta com qualidade. Estamos produzindo a variedade máximo, híbrido de seibel com syrah, que não é fina, mas tem qualidade."

 

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No ano passado, o grupo fez uma pequena colheita e identificou problemas de manejo, corrigidos neste ano. "Melhoramos a adubação e deixamos um número maior de folhas na primeira poda", diz Tordin. "Estávamos conduzindo o parreiral da mesma forma que conduzimos a niagara, tirando o ponteiro após cinco folhas. Daí, faltou folha para a maturação. Este ano, deixamos as parreiras com 14 folhas antes de tirar a ponta. Assim, ela tem mais folhas para transferir nutrientes para o fruto."

PODAS DIFERENCIADAS

Normalmente, a safra de uva é colhida na época de chuva, no verão, o que afeta a maturação, baixando o brix (nível de açúcar), dando maior acidez e aumentando o risco de podridão. O clima não chega a afetar a qualidade das variedades de mesa, mas influencia na dos vinhos. Por isso, para produção de bom vinho, a colheita deve ser feita em época seca, com dias ensolarados e noites frias. E é exatamente este o clima no outono e no inverno. Para fugir da chuva na colheita, o produtor precisa fazer podas diferenciadas. Basicamente, são duas podas, em agosto e em fevereiro. "Alteramos o ciclo da planta para ela frutificar no inverno", explica o agrônomo e professor da Unicamp, Cláudio Luiz Messias. A primeira poda, em agosto, é feita para a formação de ramos produtivos. "Zeramos a carga de uva e deixamos só os ramos", diz. A poda de frutificação é feita em fevereiro. "Nesta época, como a planta não tem fartura de água e nutrientes, ela se preocupa com a sobrevivência, daí manda o que tem de melhor para as bagas, para fortalecer a semente. Assim melhoramos a qualidade do vinho", diz Tordin.

Messias explica que o clima influencia na maturação fenólica, a responsável pela presença de sabores no vinho. "Fazendo a colheita no inverno, quando os dias são ensolarados, as noites frias e sem chuva, a uva chega num grau brix alto, entre 19 e 23, o que dispensa a chaptalização, ou seja, a adição de açúcar no processo de fermentação para aumentar o teor alcoólico do vinho", diz.

 

OS PIONEIROS

A primeira experiência do manejo diferenciado para colheita da uva vinífera no inverno foi em Três Corações (MG), em parceria com a Epamig. A variedade syrah foi a que mais bem se adaptou à região. A primeira colheita foi em 2006. "Comprovamos o potencial qualitativo da uva. O vinho está sendo elaborado e estará à venda em 2010", diz o pesquisador da Epamig Murillo de Albuquerque. "Além da Fazenda Fé, que está com 13 hectares, temos outras áreas com syrah, num total de 100 hectares."

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