SP muda safra de feijão para evitar praga

Mosca branca é transmissora do mosaico dourado do feijoeiro. Cultivo de soja e feijão beneficia praga

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 02h20

A tradicional safra do feijão da seca está com os dias contados no Estado de São Paulo. A alta incidência da praga conhecida como mosca branca no período de cultivo, com plantio em janeiro para colheita em maio, está levando os produtores a concentrar a produção na safra das águas. O inseto, transmissor do mosaico dourado do feijoeiro, é hospedeiro em lavouras de soja e, no fim do ciclo dessa cultura, se transfere para o feijão. No feijoeiro, o vírus do mosaico age de forma avassaladora, causando perdas de até 100%. A redução brutal no plantio dessa safra pode ter influência na alta do feijão. O preço da saca de 60 quilos para o produtor subiu de R$ 60 em janeiro para até R$ 180 este mês em razão da escassez do produto.

Há dez anos, a safra da seca era mais importante do que a das águas em São Paulo. Conforme o banco de dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-Apta), em 1999 o Estado plantou 105 mil hectares na seca ante 85 mil hectares nas águas. No ano passado, enquanto a safra das águas ampliou a área para 88 mil hectares, a da seca caiu para 51 mil hectares. Só em Itapeva, grande produtor, a área cultivada caiu de 4.500 hectares no ano passado para 2.500 nesta safra. Conforme o agrônomo da secretaria, Vandir Daniel da Silva, além da mosca branca, os preços baixos durante a venda da última safra contribuíram para a redução.

Revoada. O produtor Ariovaldo Fellet, da Fazenda Lagoa Bonita, foi um dos que deixaram de plantar feijão na seca. "Tínhamos por tradição plantar as duas safras, mas, de quatro anos para cá, ficou impossível entre dezembro e janeiro, porque a mosca branca não deixa produzir." Segundo ele, os insetos chegam a fazer revoada sobre os feijoeiros. "Quando se instalam, parece uma fuligem sobre a planta." O produtor concentra a produção nas águas. "Planto do começo de julho até setembro, quando tem pouca lavoura de soja, e com isso escapo da infestação."

O produtor José Furtado, de Itapetininga, também aboliu o cultivo da seca. "Onde tem soja não tem jeito, a mosca não dá chance para o feijão."

Quem conseguiu produzir acabou sendo beneficiado pelo preço melhor. O agricultor Alcides Sebastião da Mata colhia, na semana passada, 40 hectares de feijão em Tatuí, à média de 53 sacas por hectare. Parte da produção, de feijão colorido, seria mandada para o Rio Grande do Sul. O carioca estava sendo vendido por R$ 170 a saca. "Só plantei porque os meus vizinhos avisaram que não iam plantar soja", diz Mata. Mesmo assim, a lavoura pegou um princípio de antracnose, doença fúngica, por causa do excesso de umidade. "Como o preço está bom o trato não pesou."

Reprodução da mosca. O pesquisador Valdir Yuki, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fitossanidade do Instituto Agronômico (IAC-Apta), não recomenda o cultivo do feijão de forma concomitante com a soja. "O feijoeiro novo oferece as condições ideais para a reprodução da mosca branca. Quando a soja começa a ficar velha, o inseto migra para a lavoura de feijão", afirma. Segundo ele, apesar de várias pesquisas, ainda não se conseguiu um cultivar de feijão que seja resistente à praga e, ao mesmo tempo, agrade ao consumidor. "Temos algumas variedades até tolerantes, mas de grãos miúdos, que não agradam."

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