Studio 54 à beira do Alabama

Antigo clube de cavalheiros abriga um designer - e suas festinhas boêmias

Rebecca Flint Marx, NYT/ REPORTAGEM e Robert Rausch, NYT/ FOTOS,

24 de janeiro de 2011 | 10h00

 

 

Quando David Hurlbut comprou o Harmony Club - um edifício de mais de 1.800 m² às margens do rio Alabama, na pacata cidade de Selma -, a propriedade estava abandonada havia quase 40 anos. Construída por um grupo de importantes homens de negócios judeus para funcionar como clube de cavalheiros - vedado às esposas, mas não a outras moças -, também abrigou, na década de 30, um Elks Club, grupo de teatro que montava peças de teor patriótico. Após a debandada dos Elks em 1960, a construção foi lacrada.

 

 

 

 

Hurlbut, um designer de 47 anos, encontrou o edifício no site, há dez anos. Seus únicos habitantes eram as centenas de pombos que deixaram para trás, segundo ele calcula, mais de 104 m³ de dejetos. Não havia instalação hidráulica e a fiação elétrica estava semidestruída.

 

 

 

 

Apesar de tudo isso, Hurlbut diz que, na mesma hora, se deu conta de ter encontrado o seu lugar para morar. "Talvez seja coisa de homem, mas achei que seria uma casa-clube perfeita para mim." Além disso, ele estava apaixonado por Selma, uma sonolenta cidade à beira do rio Alabama, que ele compara a "uma Charleston ou Savannah de interior". Depois de mais algumas visitas, ele comprou o clube por pouco menos de US$ 100 mil, à vista, e mudou-se para lá três meses mais tarde, no dia 1º de janeiro de 2000.

 

 

 

 

Uma de suas primeiras tarefas foi retirar o que os pombos haviam deixado, mas ele não se incomodou. Sua casa anterior, no centro de Atlanta, fora construída em 1884 e era uma mercearia. Mas, na época em que ele a adquiriu, estava invadida por viciados em crack. "Vejo as coisas de maneira um pouco diferente", afirma Hurlbut. "Consigo enxergar seis, oito, nove meses à frente." Ou até mesmo dois anos - que foi o tempo que ele levou para tornar o velho Harmony Club "remotamente habitável".

 

Hurlbut fez sozinho a maior parte da reforma que, até o momento, custou US$ 150 mil. Ele conta que teve o maior cuidado para preservar os detalhes arquitetônicos, como as paredes descascadas, embora faça experiências ocasionais com tinta a base de poliuretano para impedir que a pintura original caia definitivamente.

 

 

 

 

 

Dez anos depois do início das obras de restauro, o espaço comercial no térreo já pode ser alugado: um restaurante italiano começará a funcionar ali ainda este ano. Hurlbut também aluga um dos quartos no segundo andar, onde fica o seu apartamento, para o amigo Bill Tomey, um fotógrafo e cineasta de 50 anos.

 

 

 

 

No terceiro andar, há um salão de baile com pé-direito de quase 10 metros, onde ele e Tomey realizam sessões de cinema e o Baile Anual de Belas Artes. "Muitas pessoas chamam nossa casa de Studio 54 de Selma", conta Hurlbut. Ele, que define sua estética como "neosteampunk da Idade do Ouro", decorou a maior parte do enorme interior com "móveis de castelo", pesados, de época, adquiridos em leilões. Ele comenta que é difícil encontrar peças que não pareçam anãs em um edifício dessa escala. "Mas os móveis grandes são mais baratos porque hoje em dia ninguém tem espaço para eles."

 

Em nenhum outro ambiente a escala e a história do Harmony Club são mais evidentes do que no banheiro do apartamento de Hurlbut, onde ele preservou os azulejos brancos, as louças e a área coletiva dos chuveiros. A única modificação que ele fez ali foi pendurar um grande crucifixo na parede. "Aqui posso me mexer à vontade sem derrubar o shampoo: o banheiro é tão grande que eu até poderia alugar uma parte."

 

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

 

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