Sua obra nos faz acreditar nas mais loucas fantasias

Diretor mostra, de novo, que tem um toque de mestre - e sem medo do risco

Crítica de Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

04 Dezembro 2009 | 00h00

Almodóvar tem o talento de transformar o improvável em possível, e até mesmo em necessário. Isso quer dizer que, sob outro diretor, algumas situações que inventa soariam inverossímeis. Com ele no comando, a mais descabelada das histórias parece não apenas fazer sentido, mas encaixar-se com clareza lógica e, mais importante, tocar-nos no fundo da alma. É o que acontece em seus melhores filmes e este novo, Abraços Partidos, está entre eles.

Abraços Partidos começa com dois olhares - um que vê e outro que não vê. O do cineasta cego interpretado por Lluis Homar e o da moça que o acompanha. Cineasta cego? Sim, e, de certa forma, a história será construída em torno dessa dialética entre o ver e o não ver. Em narrativa off, o homem lembra que, durante a sua carreira, adotou o pseudônimo de Harry Caine para assinar seus escritos, roteiros e outras peças literárias. O nome real, Mateo Blanco, ele usa quando dirige seus filmes. Depois de um grave acidente, do qual ele sobrevive, mas com perdas graves, ele entende que Mateo Blanco morreu.

No presente, portanto, ele será apenas Harry Caine, um nome um tanto estranho para um espanhol, inspirado, é claro, em sua cinefilia e, talvez, em homenagem ao ator Michael Caine. Caine foi ator de Hitchcock e, é bom acrescentar, Almodóvar dá um toque hitchcokiano a esse seu novo filme. Será apenas uma entre outras referências cinematográficas. Se dialoga com o suspense de um mestre como Hitchcock, também o faz com o gênero noir e o melodrama - este uma das suas matrizes básicas. Abraços Partidos tira seu encanto - ou parte dele - dessa sábia mistura de gêneros. E por que ela funciona com Almodóvar e não com outros cineastas? Pelo mesmo motivo que certas mesclas de alimentos resultam numa comida divina pelas mãos de certos cozinheiros e gororobas nas de outros. Tudo se resume ao "toque". E o de Almodóvar é de mestre.

Mas mestre que se dispõe ao risco. Quem assiste a Abraços Partidos, sente que várias vezes ele flerta com o abismo. O que talvez só aumente o seu encanto. Tudo é perigoso. Desde a parábola do cineasta que não vê até o "filme dentro do filme" que ele roda e é destruído pela montagem. Outra referência ao cinema e à dependência dos produtores e donos de estúdio. Como haverá a referência/reverência a Viagem à Itália, de Rossellini, na cena em Pompeia do casal abraçado, surpreendido pela erupção do Vesúvio. Essa imagem comovente é a chave do filme - se ele precisar de uma.

O perigo continua com Lena (Penélope Cruz, magnífica), moça pobre, depois casada com um velho garanhão cheio da grana e, ao mesmo tempo, amante do cineasta que promete fazê-la uma grande estrela. Continua com a secretária e agente do diretor cego, Judit (Blanca Portillo) e seu filho Diego (Tamar Novas), uma espécie de família informal, que terá surpresas a oferecer ao espectador.

Mas serão mesmo surpresas? Sim e não. Porque de Almodóvar - e do seu universo sexualmente libertário - se espera tudo. Por isso, ao final, podemos nos sentir tão incrédulos quanto encantados com essa história que nos fala diretamente, embora vacile quando submetida ao teste de realidade. É que a vida, em si, muitas vezes não passa pelo mesmo teste. O real parece demasiado caótico e folhetinesco para ser de fato verossímil. Por isso, talvez, as mais loucas fantasias de Almodóvar nos pareçam tão críveis.

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