Subversão ficcional atenta ao cânone e à história argentina

Em Respiração Artificial, Ricardo Piglia alia formas narrativas originais, tradição literária e reflexões sobre o regime militar

Ana Cecilia Olmos, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2010 | 00h00

Ricardo Piglia dispensa apresentações. Seus livros de ficção e de ensaio circulam no Brasil há vários anos atraindo leitores que sabem que em cada publicação vão deparar com a relevância indiscutível que a obra do escritor argentino ganhou na literatura da América Latina das últimas décadas. A nova edição de Respiração Artificial, lançada pela Companhia das Letras, na cuidadosa tradução de Heloisa Jahn - a primeira foi em 1987 e saiu com o selo da Iluminuras -, oferece a chance de revisitar as páginas de um romance paradigmático de 1980. Isso, já não apenas com o entusiasmo que desperta a novidade, senão também com o prazeroso reconhecimento de um universo literário que se tornou familiar com as leituras de Nome Falso, Prisão Perpétua, A Cidade Ausente, Dinheiro Queimado, Formas Breves e O Último Leitor.

Dentre esses títulos, talvez seja Respiração Artificial o que melhor exponha a singularidade da literatura de Piglia. Na feitura do romance, o autor alia as sedutoras estratégias de sua ficção, que administra com eficácia as doses de mistério do enredo, a uma lúcida indagação da experiência histórica da última ditadura argentina, enquanto desdobra os temas literários que, com a obsessão que define um estilo, retornam em cada uma de suas obras. A curiosa mescla que une narrativa indiciária do gênero policial, questionamento histórico e a exibição ostentosa da literatura pátria singulariza o romance e permite incorporá-lo à série argentina do "livro estranho" que o próprio Piglia definiu em Crítica y Ficción, ao se referir a Facundo de Sarmiento: "Livros que são como lugares de condensação de elementos literários, políticos, filosóficos, esotéricos." Um romance "estranho" (um antirromance, poderíamos dizer) que condensa experiências históricas e debates em torno da literatura numa instigante reflexão acerca da arte de narrar. Nesse sentido, um livro imprescindível, para além das preferências estéticas do leitor, na hora de pensar a ficção argentina.

Numa trama de significativa densidade, a primeira parte de Respiração Artificial desdobra um diálogo epistolar entre o jovem escritor Emilio Renzi e seu tio Marcelo Maggi, um professor de história que, isolado numa cidade de província, mergulha na leitura dos documentos de Enrique Ossorio, um intelectual do século 19 que, na época, optou pela traição à causa política de Juan Manuel de Rosas e pelo exílio. A troca de cartas e a circulação dos papéis de Ossorio trazem à tona um complexo jogo de vozes narrativas que debatem as possibilidades de construção de uma versão "outra" da história nacional como chave interpretativa de um presente de opressão política. Sem chegar a mencionar a ditadura militar, os narradores se embrenham numa revisão crítica do passado que desestima a dimensão heroica da história e tenta construir, a partir das derrotas, das traições e dos fracassos, uma explicação válida para "o que vem do próprio fundo da história da pátria, ao mesmo tempo único e múltiplo". Como outros romances do período, Respiração Artificial cifra, na alegoria histórica, o presente de uma sociedade submersa no terror e na morte, sem apelar, em momento algum, a um testemunho direto do horror. Fiel a um princípio estrutural da arte de narrar de Piglia que diz que em literatura "o mais importante nunca deve ser nomeado", o romance apenas sugere uma segunda trama que, de forma enigmática e fragmentária, nos relata o destino de Maggi: seu desaparecimento.

Se a alegoria histórica permite pensar Respiração Artificial como um título paradigmático da literatura argentina dos anos 1980, não é menos representativa a incorporação de uma série de debates teóricos e literários a um universo ficcional que acaba subvertendo os pressupostos narrativos do romance tradicional. Como muitas das ficções teóricas do período, por momentos o romance de Piglia transita uma zona de indefinição entre a crítica literária e a escritura de ficção que desestabiliza as certezas de gênero e permite identificar, na sua matriz narrativa, uma poética da leitura de clara filiação borgiana.

Na demorada conversa que Renzi mantém com Tardewski e Marconi, enquanto esperam o improvável retorno de Maggi, as personagens expõem uma biblioteca nacional que, na sua relação com a literatura universal, define problemas, delimita territórios, organiza posições. A tradução errônea de Sarmiento como gesto inaugural da literatura argentina, a dupla linhagem europeia e nacional que a obra de Borges encerra no século 19, a modernidade exasperada da literatura de Roberto Arlt, que inscreve a imigração na língua nacional, são algumas das questões que as personagens debatem no cerne de um romance que, em palavras de Piglia, procura fazer "um uso delirante das hipóteses teóricas como motor da ficção".

Cientes de que "a verdadeira função do conhecimento é sempre destrutiva", as personagens de Respiração Artificial traçam percursos de leitura que visam a subverter as linhas dominantes da literatura argentina, mas não chegam ao extremo de renunciar a elas. Renzi afirma, questiona, inaugura, clausura percursos de leituras sem extrapolar os domínios canônicos da literatura nacional. De algum modo, esse gesto fundador traçou uma cartografia e hoje, como sugere o crítico argentino Jorge Panesi, a história de nossas leituras passa também por esse mapa mitológico que nos inventou Piglia.

Ana Cecilia Olmos é professora de Literatura Hispano-Americana da USP, autora de Por Que Ler Borges (Globo)

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