Sucesso do Cern revive competição por supremacia

Sucesso do Cern revive competição por supremacia

Cenário:

Jamil ChadeJamil Chade, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

O êxito do Cern em mostrar que seu acelerador de partículas pode dar resultados reabriu a concorrência entre europeus e americanos para definir qual lado do Atlântico tem a supremacia na ciência moderna. O objetivo de ambos é ambicioso: explicar a origem do mundo. Para os europeus, porém, o resultado de ontem é também político.

"Isso vai muito além da ciência. Estamos falando em predomínio de países em relação ao conhecimento", afirmou um cientista que pediu anonimato. Para o brasileiro Ignacio Bediaga, o acelerador do Cern conseguirá em pouco tempo obter todos os dados que hoje existem nos EUA. Em questão de meses, a Europa deve estar na vanguarda da ciência.

O primeiro acelerador foi criado nos Estados Unidos em 1932. Desde então, governos vêm conduzindo uma corrida nesse campo. A competição foi momentaneamente suspensa em 1993, quando o Congresso americano cancelou o projeto de construção de um acelerador previsto no Texas que teria duas vezes o tamanho do projeto do Cern. O orçamento de US$ 11 bilhões fez a ideia naufragar.

Mas os resultados do Cern reviveram a competição. Os europeus superaram o acelerador americano Tevatron.

No ano passado, o governo de Barack Obama injetou por meio de corte de impostos US$ 126 bilhões em ciência e infraestrutura, como parte do programa de resgate da economia. "Parte da meta é a de gerar incentivos para empresas de tecnologia, que são fundamentais para a economia. Mas parte dessa ajuda tem mesmo o objetivo de reconquistar a supremacia na ciência", disse Michael Barnett, físico do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley.

O governo Obama estuda financiar um novo acelerador nas proximidades de Chicago. Ontem, o diretor do Cern, Rolf Heuer, indicou que novos projetos também estariam sendo estudados na Europa.

A competição promete ocorrer também dentro do Cern para saber quem levará as honras de desvendar o mistério da matéria negra - que constitui 25% do universo. Dois projetos ligados ao acelerador estão na disputa: o Atlas e o CMS. Oficialmente, cada um dos chefes de projeto fala apenas do significado do acelerador para a história. Mas ambos admitiam que a concorrência existirá.

Fabiola Gianotti, representante do Atlas, garantiu que uma "concorrência saudável é sempre boa", mas prometeu colaborar com seu colega Guido Tonelli, do CMS. Tonelli disse que sem concorrência não haveria avanço na ciência. "É isso que nos leva ao limite e faz com que possamos chegar a resultados", afirmou. "A concorrência dentro do Cern será sem segredos. Os truques estarão disponíveis a todos", concluiu. "Queremos concorrência com cooperação."

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