Sudão expulsa agências humanitárias e desafia corte de Haia

O presidente do Sudão disse na quinta-feira a milhares de simpatizantes que o mandado internacional de prisão contra ele é um complô colonialista, e anunciou a expulsão de dez agências humanitárias estrangeiras. O mandado de prisão contra o presidente Omar Hassan Al Bashir foi emitido na quarta-feira pelo Tribunal Penal Internacional, por causa de atrocidades ocorridas na região de Darfur. Foi a primeira vez que o tribunal, com sede em Haia, usou esse recurso contra um governante em exercício. Bashir respondeu de maneira desafiadora, acusando as agências humanitárias de violarem a lei e dizendo que o governo enfrentará qualquer manobra desestabilizadora. "Vamos lidar com responsabilidade e decisão com quem tentar atingir a estabilidade e a segurança do país", disse Bashir numa reunião com políticos na quinta-feira. "Já expulsamos dez organizações estrangeiras (...) depois de monitorar atividades que agem em contradição com todos os regulamentos e leis", acrescentou. Mais tarde, ele discursou a milhares de manifestantes, alguns deles com cartazes chamando de criminoso o promotor do tribunal. Bashir disse que o TPI é uma ferramenta a serviço de colonialistas interessados em recursos naturais do Sudão, especialmente petróleo e gás. "Nós nos recusamos a nos curvar perante o colonialismo, por isso o Sudão tem sido alvejado (...), porque só nos curvamos diante de Deus", disse ele à multidão diante do Palácio Republicano. Gritos de "Estamos prontos para proteger a religião" e "Abaixo os EUA" interromperam seu discurso. A China pediu na quinta-feira ao Conselho de Segurança da ONU que atenda aos apelos de países africanos e árabes e suspenda o processo contra Bashir. Os EUA, porém, elogiaram o mandado de prisão. O tribunal indiciou Bashir por sete acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, o que inclui homicídios, estupros e torturas. As três juízas responsáveis pelo caso consideraram que não havia base para acusações de genocídio. Bashir é acusado de ter armado milícias árabes que reprimiram com violência uma rebelião contra o governo iniciada em 2003 em Darfur. Especialistas internacionais dizem que o conflito já matou 200 mil pessoas, enquanto o governo diz que foram 10 mil. Outros 2,7 milhões teriam fugido. A ONU e outras agências humanitárias realizam em Darfur a maior operação humanitária da atualidade no mundo, que no entanto pode ser afetada pela expulsão das ONGs. O Sudão revogou as licenças de operações de várias entidades estrangeiras horas depois da decretação do mandado de prisão contra o presidente. (Reportagem adicional de Alaa Shahine, no Cairo)

ANDREW HEAVENS, REUTERS

05 de março de 2009 | 10h06

Tudo o que sabemos sobre:
SUDAOAGENCIASEXPULAS*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.