Sumô ganha ginga e adeptos no Brasil, mas vive de voluntários

Com um rápido giro do corpo, AnaBárbara Santi vira o jogo e derruba sua adversária na arena deterra. O ginásio vibra com a manobra da garotinha de 8 anos. Ésua primeira vitória no sumô. Ela é uma das 200 crianças e adolescentes de até 18 anosque participaram de um campeonato de sumô no fim de semana, emum ginásio na capital paulista. Estavam delegações de SãoPaulo, Paraná, Rio Grande do Sul e até do distante Pará. Bárbara, descendente de italianos e longe de ser gorda,vestia colan vinho até o joelho, sem mangas, com a faixa brancaamarrada na cintura, chamada mawashi. Após a vitória, o pai deuparabéns à filha, um abraço apertado e um beijo no ombro, ondesurgiu um arranhão. O sumô, esporte popular e tradicional no Japão, é uma dasheranças dos primeiros japoneses imigrantes que chegaram aoBrasil há 100 anos. Por aqui, no entanto, o sumô é hoje praticado em apenascerca de 15 academias espalhadas pelo país, e os brasileirossão maioria, quase 75 por cento, desbancando os nikkeis,descendentes de japoneses. Há registros de campeonatos de sumô no interior paulistadesde a década de 1910. Para o presidente da Federação Paulistade Sumô, Morito Tsuchiya, o esporte foi facilmente integrado. "O sumô é fácil de praticar e teve rápida integração entreos não-nikkeis", disse Morito. "Os japoneses foram seintegrando na sociedade, entrando em outros esportes, como ofutebol." Sem divulgação e patrocínio, o sumô sobrevive no país àscustas de muito trabalho voluntário, rifas, bazares e atémacarronadas. A Associação Norte de São Paulo de Sumô, por exemplo, passao ano com 10 mil reais, arrecadados com rifas. O mesmo acontecena Associação Kaiko, em Londrina, que ensina "artes marciaiscomo conceito de vida" a comunidades carentes. Para pagar ascontas, fazem bingos, rifas e até macarronadas. Apesar da dificuldade, o Brasil marca presença no Mundialde Sumô amador e coleciona alguns títulos. A última vez que opaís ganhou no individual foi com uma paulista não-nikkei,Fernanda Pereira da Costa, peso-pesado, na Alemanha, em 2004. O comerciante Celso Satomi, 57 anos, lutou sumô no Brasilpor 30 anos e chegou a fazer intercâmbio de estudantes comacademias no Japão. "O menino no Japão é destinado a fazer só aquilo. Oconteúdo é ganhar, ganhar, ganhar. Uma bitolação. Aqui a gingabrasileira prevalece. Aqui aplicamos o esporte ensinando acultura, o respeito, a como ser esportista", disse Celso,enquanto fumava e bebia cerveja com os amigos no ginásio. "Aqui consegue se fazer um sumô brasileiro. Mas quem é quevai mudar o sumô no Japão?", brinca Celso. PARA TODOS OS PESOS No ginásio na zona norte da capital paulista, aprecariedade chama a atenção. Os bancos são feitos de tábua, eos banheiros estavam interditados. No escritório, há buracos naparede, muita poeira e janelas quebradas. Nada disso, no entanto, parece prejudicar a animação dosparticipantes do campeonato. Os mais novos brincam na areia aoredor do ringue, e os mais velhos arrumam o mawashi de seuslutadores. As faixas, que não podem ser lavadas para manter o espíritodos ancestrais, têm que dar cerca de quatro voltas na cinturado lutador, chamado de sumotori, e outra entre as pernas. Cada luta dura cerca de um minuto, às vezes apenas algunssegundos. O objetivo é simples: derrubar o adversário outirá-lo do círculo feito na arena, chamada de dohyô. Enquanto esperava sua vez de lutar, o estudante paulistaRicardo Faiolli Francisco, 16 anos, comentou que enfrentapreconceito na escola, embora não ligue. "Eles fazem brincadeira, dizem que eu fico de fraldão etal. Mas quero ver eles fazerem isso", desafia. "O treino émuito forte, muito mais forte que jiu-jitsu", garante. Ser gordo não é pré-requisito, apesar de fazer parte do roldos estereótipos quando se fala em sumô. Muitos são magros, commúsculos torneados até. Ricardo tem o índice de massa corporal(IMC) em 33, considerado obeso, mas garante que não é. "Minha massa gorda é de apenas 25 por cento", justifica.

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