Superalimentação não ajuda bebê com baixo peso

Pesquisas indicam que metabolismo adaptado à falta de nutrientes durante gestação pode levar a doenças se houver excesso no pós-parto

Karina Toledo, O Estadao de S.Paulo

24 Dezembro 2009 | 00h00

Crianças que nascem com baixo peso têm mais risco de sofrer de problemas cardiovasculares na vida adulta. E superalimentá-las na tentativa de fazê-las atingir o peso ideal só tende a agravar o problema, afirmam pesquisadores da Universidade Federal de Goiás. Eles analisaram grupos de estudantes entre 8 e 11 anos e descobriram que, mesmo antes de entrar na puberdade, aqueles que nasceram com peso igual ou menor que 2,5 quilos já apresentavam sinais de que poderiam desenvolver problemas de saúde no futuro.

"Claro que isso pode ser evitado com uma dieta equilibrada e hábitos saudáveis", ressalta Claudia Salgado, autora principal do estudo, que defende que a prevenção de doenças deve começar na vida pré-natal. "Nossas conclusões se baseiam na chamada hipótese da programação fetal, já levantada por estudos internacionais. A teoria propõe que, quando há uma baixa oferta de nutrientes ao feto durante a gestação, seu organismo se adapta ao ambiente pobre e se torna poupador. Se o padrão de nutrição melhora muito no pós-parto, a criança pode desenvolver problemas como obesidade, resistência à insulina, diabete e hipertensão."

Os pesquisadores acompanharam mais de mil crianças de escolas públicas de Goiânia. Foram selecionadas 68 dessas - 34 nasceram com baixo peso e 34 com peso normal e características similares às do outro grupo - para o monitoramento ambulatorial da pressão arterial. Um aparelho acoplado ao corpo dos voluntários fez medições durante 24 horas, enquanto eles realizavam atividades normais.

"Todo mundo, quando dorme, deve ter uma queda na pressão arterial de pelo menos 10%. É uma forma de poupar o coração", explica Claudia. "Além de apresentarem uma média mais alta nas medições da pressão arterial, as crianças de baixo peso no nascimento também tiveram menor descenso noturno. Estudos já mostraram que isso é um fator de risco para doenças cardiovasculares."

Também foi medida a perda urinária da proteína albumina. Quanto maior a perda da substância, maior o risco de lesão nos vasos sanguíneos e de doença renal. "As crianças do grupo de baixo peso apresentaram maior perda de albumina na urina. Naquelas com histórico de hipertensão na família, o índice foi ainda mais alto, o que sugere que já tinham alguma lesão vascular precoce", conta Paulo Cesar Jardim, coautor do estudo. O trabalho ganhou o Prêmio ABC de Publicação Científica, oferecido pela revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia.

"Essas crianças precisam de acompanhamento mais cuidadoso. O pediatra deve, por exemplo, fazer medições frequentes da pressão. Os pais devem estimular um estilo de vida saudável", diz Jardim.

Diversos fatores podem prejudicar o crescimento do feto, como doenças não tratadas, alterações na placenta, fumo e alimentação materna. "A placenta é eficiente em manter o equilíbrio de nutrientes para o feto, mesmo com variações na dieta da mãe. Quando a mulher ganha pouquíssimo peso durante a gravidez ou quando engorda muito, pode haver desequilíbrio que prejudica o fluxo de nutrientes para o bebê", diz o pediatra Paulo Nader, da Sociedade Brasileira de Pediatria. "Por isso, pré-natal adequado e alimentação equilibrada são importantes." Segundo a Organização Mundial da Saúde, 95% das crianças que nascem com baixo peso são de países pobres.

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