Supermercados preocupam pequenos comerciantes na França

Projeto de lei reduz restrições à abertura de grandes lojas varejistas no país.

David Chazan, BBC

27 de maio de 2008 | 18h15

As famílias proprietárias dos tradicionais açougues, padarias e armazéns tão típicos da vida na França estão preocupadas com planos do governo de facilitar a abertura de supermercados no país.A França, ao contrário de seus vizinhos europeus, é caracterizada por uma abundância de pequenas lojas e cafés, e pela relativa ausência de supermercados em muitas áreas.Mas o presidente Nicolas Sarkozy está tentando recuperar um pouco da popularidade perdida diminuindo o custo de vida no país.Um projeto de lei com o objetivo de modernizar a economia está sendo apresentado ao Parlamento.A lei pretende suspender algumas das restrições atuais à abertura de supermercados e abolir regulamentações complexas que impedem os atacadistas de oferecer descontos a lojas que compram em grande quantidade.No momento, os atacadistas têm de oferecer seus produtos a todos os varejistas pelo mesmo preço.CompetiçãoO governo diz que as mudanças vão abaixar preços, estimular o crescimento econômico e criar mais empregos."Esta é uma lei muito importante, que tem como meta aumentar o PIB em 0,3% ao ano a partir de 2008, e criar mais 50 mil empregos por ano de 2008 em diante", diz Marc Mortureux, do Ministério das Finanças da França."Isso vai estimular mais competição, e o poder de compra vai subir na medida em que os preços caírem", acrescentou.No entanto, há temores de que o projeto cause o fim das pequenas lojas, um dos fundamentos do estilo de vida francês.Toque pessoalAlbert Azria, proprietário de um armazém na Rue de Bretagne, rua movimentada em uma região badalada de Paris, diz que os supermercados já destruíram várias pequenas lojas e que a nova lei pode terminar de acabar com todas as restantes."Somos especialistas e fazemos as coisas da maneira tradicional, servindo o freguês, explicando o produto e ficando com o freguês do começo ao fim", afirma Azria."Isso é o que nos torna diferentes", acrescenta o comerciante. "Mas está claro que quanto mais supermercados houver, menos bolo vai sobrar para nós."O governo diz que ainda haverá espaço para as lojas pequenas mesmo se houver mais supermercados, porque muitas pessoas de classe média estão dispostas a pagar mais por um serviço personalizado nas lojas menores.Azria estimula seus fregueses a tocar as frutas, cheirá-las e até prová-las. Ele se orgulha em vender mercadorias em sua maioria produzidas na França.Uma de suas freguesas, Joanne de Bades, diz que o governo deveria ajudar lojas como a de Azria."Lojas pequenas deveriam ser protegidas para que haja diversidade, não apenas supermercados vendendo frutas e legumes que vêm do mundo inteiro e não são produzidos em fazendas pequenas", afirma a consumidora.CustoVisitar as lojas pequenas de Paris é realmente agradável. Você sempre bate um papo com o dono e, às vezes, pode até conversar com outros fregueses.Mas esse estilo aconchegante de fazer comércio está fora do alcance das pessoas mais pobres, particularmente os que vivem nos subúrbios.Em Saint-Denis, nos arredores de Paris, muitos lutam para equilibrar as finanças, e o preço crescente no custo dos alimentos está tornando as coisas ainda mais difíceis."Quanto mais supermercados houver, melhores preços vamos ter, porque a maioria dos preços subiu muito", diz a consumidora Laetitia Tulet, ao sair de um imenso supermercado. Durante sua campanha eleitoral, Sarkozy prometeu aumentar o poder de compra dos franceses. E ele precisa desesperadamente cumprir sua palavra após o que muitos consideram ter sido um decepcionante primeiro ano no governo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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