Suplemento Literário: Winston Leonard Spencer Churchill, biografia

Winston Leonard Spencer Churchill  Biografia -  Randolph Churchill, Winston S. Churchill, Vol. 1, Youth, 1874-1900, Ilustrado, Houghton Mifflin, 1966, 614 pags.

Laura Zamarin,

14 de abril de 2011 | 17h53

Eis uma biografia que oferece esperança a muitos pais, cujos filhos na infancia foram considerados incorrigiveis pelos mestres ou, quando jovens, impossiveis de suportar pelos progenitores.

Não é tarefa facil biografar Winston Churchill. Sua vida politica prolongou-se por sessenta anos. Sua juventude foi tudo menos banal – aos 26 anos já tinha lutado em três guerras, escrito três livros e ganho as eleições para membro do Parlamento.

Randolph Churchill, unico filho de Churchill, lançou-se á tarefa ingente de escrever uma biografia paterna em cinco volumes, tendo agora aparecido o primeiro deles. O A., de inteligencia clara e espirito pratico, planejou com tempo e calma o material de que dispunha e assim nos apresenta um volume de excelente leitura. Dispondo de um arquivo excepcional de documentos, usou de muito bom senso ao separar os documentos da narrativa propriamente dita. Os primeiros serão publicados em volumes á parte. a narrativa é fluente pois que o A. eliminou o uso de notas – não há sequer uma no primeiro volume, nem mesmo o leitor sente necessidade delas, o que demonstra a capacidade de organização do autor.

O primeiro volume abrange o mesmo espaço de tempo relatado por Winston Churchill em sua autobiografia My Early Life. Ou seja, desde o seu nascimento em 1874 até 1900, quando ingressa em sua vida política, como membro conservador do Parlamento. O volume termina realmente com a morte da Rainha Vitoria em 1901 e nos deixa o jovem Churchill no inicio de sua longa carreira politica, além de muitas outras há uma diferença a fazer entre as duas obras – a do pai e a do filho. My Early Life é uma autobiografia discreta, pois que foi escrita para publicação imediata. Randolph Churchill é um bom filho, mas é também um historiador honesto e não se deixa prender por certos detalhes menos favoraveis. Parte do principio que toda a verdade acerca de Churchill pode ser dita, pois a figura do estadista foi tão grandiosa que seu brilho não se vê diminuido pela apresentação de seus defeitos pessoais.

O que o pai em sua autobiografia contou veladamente, por exemplo suas relações com seus progenitores, já o filho pode relatar abertamente, atendo-se á verdade e dando ao mundo uma visão ampla e clara da infancia de Churchill. Quando este diz venerar o pai e idolatrar a mãe, Randolph explica que tanto o pai como a mãe pouca atenção e carinho dispensaram ao filho. Lord Randolph achava o filho um fracasso, pouco se importava com o mesmo, absorvido que sempre estava em politica. Lady Randolph se dedicava á sua intensa vida social; não tinha tempo para escrever ao filho nem visita-lo no colegio, nem sequer o queria em casa nas ferias para não atrapalhar suas festas e reuniões. A atitude dos dois via desde preocupação pelo futuro do jovem, até uma fria indiferença, para não dizer quase crueldade.

Mas se Churchill se sentiu infeliz em criança, soube certamente superar essa fase e lançar-se á vida de jovem dominado por uma ambição sem limites. Depois de três tentativas consegue finalmente ingressar no exercito e lutar em três guerras. Seu objetivo, porém, não era a carreira das armas mas a obtenção de um passado de glorias e lutas que o tornasse conhecido e o ajudasse mais tarde quando entrasse na politica, a que já havia decidido se dedicar. Chega a confessar que só se arriscava quando sabia que seus movimentos podiam ser observados e relatados. Desejava ganhar medalhas, aspirava até á conseguir a Cruz da Vitoria e achava que sua captura pelos boêres podia, por sua repercussão, ajudá-lo a entrar no Parlamento. Depois de uma tentativa falhada de se eleger, em 1899, tenta novamente no ano seguinte e consegue ser eleito. A sua fuga do campo de prisioneiros na Africa do sul e a publicidade dada á mesma ajudaram-no realmente a obter o tão almejado lugar no Parlamento.

O A., ao contrario de seu pai em sua autobiografia, descreve os anos da juventude de Churchill com mais realismo e nos deixa ver como o biografado se tornou na epoca impopular a muitos ingleses. Sua imensa ambição, sua autoconfiança ilimitada, seu desdem por convenções, seu egocentrismo, desgostavam e irritavam não poucos. Mas a verdade é que, se por vezes era intoleravel, era também frequentemente irresistivel. Se era arrogante, esnobe e calculista, era igualmente bravo, espirituoso e generoso. Se seu comportamento foi por vezes pouco convencional desculpou-se, e bem, ao escrever: “se eu devesse evitar fazer coisas “fora do comum”, é dificil conceber como poderia aspirar a ser uma pessoa diferente do comum”.

Quanto á sua vida literaria, vemos seu crescente interesse pela literatura e pela leitura de bons autores desde seus anos de juventude quando, aproveitando sua estada na Índia, com um regimento de cavalaria, aproveita o tedio imenso de sua inatividade para se educar. Começa então a arrepender-se de não possuir instrução universitaria e a ressentir-se que seu irmão fosse um letrado enquanto ele era apenas um soldado. Decide resolver a situação auto-educando-se.

O primeiro volume ora aparecido é um excelente preludio a uma grande biografia política. Esperamos pelos outros quatro. Pela promessa que nos oferece o primeiro volume tudo faz supor que teremos uma magnifica obra sobre um dos maiores homens do nosso século.

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