Suspendam o obituário

Ainda é cedo para as exéquias da liderança global dos EUA, dizem analistas, lembrando que houve períodos piores na história do país

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2011 | 16h18

A explosão da crise econômica e política nos EUA animou um bocado de gente a escrever o obituário da América. Essa ânsia elevou à categoria de palavra da moda a expressão alemã Schadenfreude, que quer dizer "regozijar-se com a desgraça alheia" - no caso, a do dito "império americano". Além de uma profusão de caricaturas de um Tio Sam alquebrado e molambento pedindo esmolas, foi possível ler, nos últimos dias, análises cataclísmicas sobre a queda dos EUA, como se fosse Roma. Nem mesmo a democracia americana, exemplo para o mundo e fonte do vigor do país, teria resistido ao apocalipse.

 

Em artigo publicado no New York Times de 31 de julho, dois cientistas políticos de Yale escreveram: "Nosso país não está sofrendo apenas a crise da dívida; está sofrendo uma crise de democracia". O correspondente da revista alemã Der Spiegel em Washington, Gregor Peter Schmitz, não fez por menos. Para ele, os ultraconservadores do Congresso, reunidos no bloco Tea Party, usaram a crise econômica não somente para atrapalhar o governo Obama; eles ameaçam "desafiar todo o sistema" institucional do país. Analistas ouvidos pelo Aliás, porém, advertem que, a despeito dos graves problemas, é ainda muito cedo para as exéquias do sonho americano.

 

"Se observarmos os primeiros dias da república nos EUA, as disputas políticas eram tão amargas quanto as atuais, e houve períodos ainda piores na história política americana", argumenta Joseph Nye, cientista político de Harvard e teórico do "poder brando" americano, aquele que se traduz não no campo militar, mas no econômico e no cultural. Moisés Naím, editor-chefe da revista Foreign Policy, lembra que, na época do macarthismo, dizia-se também que a democracia americana estava morta, e não foi isso o que aconteceu. "Com certa frequência aparecem nos EUA movimentos radicais, que ganham muito poder e influência rapidamente, mas perdem esse poder e essa influência na mesma velocidade e tendem a desaparecer", diz Naím. Boa parte dos americanos, pondera ele, pode até gostar do Tea Party por sua oposição franca, mas a maioria repudia as ideias centrais desse movimento.

 

O Tea Party é semelhante a outros tantos movimentos populistas que, de tempos em tempos, assombram a cena política americana. Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos EUA, diz que esses grupos "têm sempre essa característica, de ser marcado pela ignorância, por uma atitude de arrogância diante do mundo", e isso causa muita apreensão. Ricupero recorda que, quando houve o escândalo de Watergate, "muita gente dizia nos EUA que a Constituição americana não servia mais". O historiador Antonio Pedro Tota, autor do livro Imperialismo Sedutor, sobre a influência dos EUA no Brasil, acredita que o Tea Party seja, pelo contrário, uma "demonstração da democracia americana", ainda que esses conservadores se considerem os "verdadeiros representantes dos ideais dos pais fundadores", numa óbvia distorção do legado de Thomas Jefferson.

 

As hiperbólicas análises sobre a crise política nos EUA se repetem quando se trata de avaliar os problemas econômicos no país. Para Nye, o país não está em declínio absoluto e é perfeitamente capaz de se recuperar da crise. Dito isso, Nye e os demais consideram precipitado enxergar a China um competidor capaz de superar os EUA em poder global, agora ou no futuro.

 

"O que importa não é o poder absoluto, e sim o poder relativo", diz Naím. "O poder dos EUA está declinando em várias áreas e tem vários problemas, mas o resto dos países tem os mesmos problemas, só que mais graves." Ele acrescenta que o poder americano será limitado por novos atores, como a China, a Índia e o Brasil, mas isso não quer dizer que esses atores vão substituir os EUA como potências hegemônicas. Tota é da mesma opinião: "Os grandes países terão um papel menor, e a hegemonia mundial vai, aos poucos, sendo compartilhada".

 

Para Ricupero, é fácil entender o tamanho do poder dos EUA e como o país não tem como ser desafiado em sua liderança global mesmo estando em crise. Ele propõe pensar em "tabuleiros de poder" - econômico, político, cultural, industrial e acadêmico, entre outros tantos. Ricupero diz que os EUA são o único grande poder que é decisivo em todos os tabuleiros. "Há 80 anos, o mundo é formado pela cultura americana. Os chineses não podem entrar nessa competição", pondera. E arremata: "Os EUA têm a ‘fábrica dos sonhos’. Qual é o sonho que os chineses fabricam?"

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