Suspense e humor com Verissimo

Em Os Espiões, sua estreia na editora Alfaguara, o cronista do Caderno 2 põe um editor bêbado atrás de um caso de polícia

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Em seu primeiro livro para a Editora Alfaguara, Os Espiões, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2, segue os passos do britânico John Le Carré, o filosófico autor de grandes títulos de espionagem, mas logo se desvia de sua rota para encontrar uma estrada vicinal que leva a um cruzamento híbrido entre livro policial, crônica de costumes e humor. Principalmente humor.

Os Espiões começa com um editor de ressaca desviando-se dos poemas medíocres que caem em sua mesa até que um livro anônimo, escrito por uma disléxica que ameaça se matar numa cidade interiorana, o leva a investigar sua vida e a tentar salvá-la de um crime. E, se puder, dos erros gramaticais da falsa Ariadne.

A evocação do nome do escritor inglês John Le Carré é frequente em Os Espiões, cujos livros de espionagem parecem ter inspirado a escritura de seu primeiro livro para a Alfaguara. Como na obra de Le Carré, que traz invariavelmente comentários sobre a ambivalência moral da classe média, Os Espiões entra nesse universo de forma igualmente crítica, ao colocar no mesmo pacote leitores e editores consumistas de livros de autoajuda e de melodramas folhetinescos sobre traições amorosas. Esse foi o objetivo inicial de Os Espiões? Criticar o mercado editorial?

Não. O fato de o narrador trabalhar numa editora é só um gancho para desencadear a trama. Talvez não seja muito evidente, mas todos os meus romances até agora foram, de um jeito ou de outro, sobre a relação do narrador com a narrativa e seus personagens, a velha questão flaubertiana do lugar do autor no texto, da onipotência do autor, do seu distanciamento, etc. Em A Décima Segunda Noite esse distanciamento foi levado ao extremo, o narrador é um papagaio. O que Os Espiões comenta, sim, é a compulsão por fazer literatura, ou só publicar livros, que move tanta gente. Mas esta observação faz parte da misantropia geral do narrador.

Frondosa é uma espécie da Santa Maria de Juan Carlos Onetti, uma cidade ficcional em que a psicologia dos personagens parece amalgamada à fisionomia algo deformada das cidades interioranas brasileiras, que já perderam sua arquitetura e identidade originais. Os industriais falidos da família Galotto são para você o retrato de um Brasil que vive de nostalgia? Como você vê a cultura do interior do País hoje?

Frondosa é para ser um lugar meio grotesco e meio mágico em que os personagens porto-alegrenses, que têm pela vida interiorana um desdém cosmopolita que não deixa de ser meio carinhoso, dão de cara com uma realidade que os derrota. Eles literalmente não sabem onde estão se metendo.

Os intelectuais são retratados em Os Espiões de forma pouco favorável, a começar pelo editor bêbado que abre o livro e julga, de maneira irresponsável, os originais que recebe, e terminando pelo professor Fortuna, um tipo patético e avesso à presença dos outros. Você acredita que a cultura brasileira favoreça o advento desse tipo de intelectual etílico ou que álcool e criação literária andem juntos?

Os intelectuais do livro são frustrados como o narrador, pouco sérios como o Dubin ou falsos como o professor Fortuna, e os três são medíocres. Não creio que representem nenhum tipo de intelectual brasileiro. Me parece, inclusive, que o álcool, "a musa sedenta", como já foi chamado, não inspire mais intelectuais como inspirava há algum tempo. Ou então eu é que ando na turma errada.

Quando Dubin lê a carta anônima e conclui que a "Amiga" e Ariadne são a mesma pessoa, ele diz que não se trata de uma suicida, mas de "falso desespero literário". Logo adiante, o professor Fortuna, ao ler o manuscrito, dá seu parecer e formula sua tese: a literatura, como a estiva e a Fórmula 1, não é para as mulheres. Você acha que existe uma literatura feminina ou literatura não tem sexo?

A opinião sobre escritoras é do professor Fortuna, não é minha. Ele diz que a Virginia Woolf deveria ter sido abatida a tiros pelas autoridades inglesas, antes de fazer mais estragos à sua volta e induzir outras mulheres a escrever. Eu acho que literatura não tem sexo. O professor é obviamente um louco.

Seu livro começa com muito humor e vai deixando um gosto amargo na boca à medida que avança no terreno pantanoso da classe média de Frondosa e seus tipos excêntricos, que poderiam bem estar num romance de Lúcio Cardoso. É possível conservar o humor diante do quadro negro representado por uma cultura hedonista e criminosa, considerando o crime passional do livro que se espalha pelo Brasil?

Descontado o final trágico, que não deixa de ser uma trapalhada, há humor em todo o livro. Pelo menos a intenção era esta. O livro é a história de um engano. Os quatro personagens porto-alegrenses pensam que estão numa história que podem manipular e estão em outra, que os manipula. De desencontros assim são feitas as comédias, mesmo que de vez em quando morra um inocente. Ou no fim todo o mundo perca suas ilusões, como a do narrador que pensava poder mudar o destino de uma personagem, como o autor onipotente de Flaubert, e a destrói.

A poeta Sylvia Plath é plagiada descaradamente por Ariadne em Os Espiões, uma invenção como tudo o que sua literatura sugere, do ipê-amarelo na casa dos Galotto à biografia de uma mitômana. A ficção é para você um refúgio ou um acerto de contas com a mediocridade de um mundo em que a poesia parece não ter mais lugar?

Minha ficção não pretende nada tão importante. E acho que se o livro tem alguma "mensagem" colateral é a que a literatura não substitui a vida.

Serviço

Os Espiões. De Luis Fernando Verissimo. Editora Alfaguara. 144 páginas. R$ 31,90

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