Sutileza em detalhes revelados por uma formação popular

Em novo disco, Rabo de Lagartixa mescla temas famosos e menos conhecidos, incluindo o inédito Canção das Águas Claras

Lucas Nobile, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2010 | 00h00

Um mapa de um país continental como o Brasil exposto sobre a mesa, e um homem disposto a palmilhá-lo por inteiro. Assim Heitor Villa-Lobos mergulhou em sua terra para traduzir em música a diversidade de seu povo. Dar conta da responsabilidade de regravar uma obra minuciosa como a de Villa, fugindo do óbvio, é algo desafiador. Depois de revelar uma competência brutal em composições próprias, como Quebra-Queixo e Brincadeiras de Quintal, o grupo Rabo de Lagartixa naturalmente foi convidado a gravar um disco apenas com temas de autoria de Villa-Lobos, O Papagaio do Moleque. Em entrevista por telefone, Marcello Gonçalves, um dos violões 7 cordas mais seguros da atualidade, fala do equilíbrio entre temas famosos e outros menos conhecidos, e como Villa comporia hoje diante de uma geração talentosa de instrumentistas.

Além do longo trabalho de pesquisa, quanto tempo demoraram para gravar?

Foi um trabalho complicado, porque não foi só chegar e tocar, pesquisamos praticamente o ano inteiro. Gravando foram quase cinco semanas. Lá na Biscoito Fino falavam: "Vocês estão demorando mais que a Maria Bethânia." (risos)

Por perfeccionismo?

A graça desse repertório é justamente os detalhes ficarem explicados. No fundo, foi como se o Villa-Lobos estivesse vivo aqui, hoje, e a gente pedisse arranjos a ele para nossa formação. O que a gente fez foi tentar mergulhar e entender o raciocínio das composições dele.

Como é pegar uma composição feita originalmente para orquestra e transportar para o popular? É um trabalho de enxugamento?

É complicado, você tem de fazer escolhas. Normalmente o que fazem é fugir um pouco dos detalhes, e pegar o primordial: melodia, linha de baixo... A minha teoria (risos), se é que podemos dizer assim, é que um compositor como o Radamés Gnattali, que teve contato com músicos populares de altíssimo nível, como Garoto, Zé Menezes, e depois a geração do Raphael Rabello, ficou estimulado com aquilo e compôs em homenagem a eles. O Villa-Lobos teria feito alguma coisa assim se tivesse do lado dele um Raphael Rabello. Naquela época também existiam grandes músicos populares, mas nem liam partituras. O interessante é imaginar como que o Villa estaria vendo essa geração de músicos populares muito bem preparados, que podem ler partitura e ter uma boa execução daquilo.

Você acha que é sempre arriscado pegar essas obras e fazer novos arranjos?

Muito. O Henrique Cazes falou: "Olha, vocês deveriam ganhar um prêmio só pela coragem." (risos) Mas ao mesmo tempo é fascinante. O Villa-Lobos tinha uma noção muito grande da música popular, mas como escreveu para formações eruditas, muitas vezes nas gravações certos detalhes que são típicos da música popular passam despercebidos, soltos no meio da orquestra. Existe um folclore de que o Villa teria usado coisas indígenas ou do candomblé. Se ouvir com atenção, tem isso lá. Tem ritmos típicos de candomblé, sabe? Na nossa formação a gente tem a possibilidade de deixar isso mais claro.

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