Tabus ainda marcam aula de educação sexual

Segundo professores, objetivo da disciplina na escola é desconstruir mitos antigos

Mariana Mandelli, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2010 | 00h00

Tabelinha funciona? Existe uma idade certa para transar pela primeira vez? Tem perigo de a pílula não funcionar? Masturbação faz mal para saúde? Apesar de viverem cercados por informação de acesso fácil, os jovens continuam com os antigos mitos sobre o sexo na cabeça. Desconstruí-los continua sendo o principal objetivo das aulas de educação sexual nas escolas.

No entanto, o desafio não é só quebrar tabus e desfazer clichês. Obstáculos como a falta de professores especializados e a resistência dos pais em discutir o tema reforçam um cenário complicado. Casos recentes e polêmicos, como a "pulseirinha do sexo" e o recolhimento do livro paradidático Mamãe como eu nasci?, de Marcos Ribeiro, pela Prefeitura do Recife, revelam a dificuldade latente em discutir o assunto no ambiente escolar.

De acordo com o Ministério da Educação, a discussão sobre sexualidade deve constar no currículo da escola (leia mais nesta página). E os educadores defendem a ideia de que ela é um ambiente privilegiado para isso. "A escola é o lugar oportuno para o debate, para a obtenção dessa informação. O tema deve ser incorporado ao projeto pedagógico e o professor deve deixar de lado suas opiniões pessoais e passar apenas conhecimento", explica a pesquisadora da Fundação Carlos Chagas Sandra Unbehaum.

Contudo, a própria formação dos professores não aprofunda o tema da educação sexual. "Há falha no preparo do docente. Ainda vivemos um período em que, quando muito, a disciplina é oferecida de forma optativa", afirma a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo Cláudia Vianna.

Para os especialistas, os mesmos tabus permanecem por gerações porque há muita informação disponível, mas pouca reflexão. "Ao mesmo tempo em que a mídia libera muita coisa sobre o assunto, a sociedade permanece conservadora", diz o pesquisador do câmpus de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Rennes Ribeiro.

Conteúdos. As escolas separam diferentes temas para serem discutidos de acordo com a faixa etária. Para os alunos do fundamental I (1º ao 4º ano), a reprodução permeia a temática das aulas. Entre os mais velhos, do 5º ao 9º ano, aparecem as transformações no corpo. Já as discussões sobre a primeira vez costumam surgir no ensino médio. Cenas de filmes, peças que reproduzem o corpo humano, reportagens de jornais e revistas e livros paradidáticos, que abordem questões como homossexualidade, métodos contraceptivos e gravidez na adolescência, estão entre os materiais mais utilizados em sala.

"Temos de trabalhar também com as dúvidas que eles trazem", diz a coordenadora pedagógica do Colégio Humboldt, Janice de Pontes. "Precisamos informá-los para que eles possam fazer escolhas conscientes. É uma questão de cidadania."

No Colégio São Luís, escola católica na região central de São Paulo, além da discussão do assunto nas disciplinas da grade, existe um dia especial destinado à educação sexual. O Dia de Formação ocorre em uma chácara, onde os alunos passam o tempo em atividades que debatem o sexo. "Com as meninas, focamos mais nas questões emocionais e de relacionamento, como namoro e beijo. Já com os meninos, os temas mais falados são, por exemplo, masturbação e higiene", conta a coordenadora pedagógica do 8º ano, Rosana Solha.

Para a psicóloga e especialista em sexualidade Ana Cláudia Maia, as aulas devem abordar também ideais estéticos e temas ligadas ao bullying. "Questões como: "meu corpo é adequado?", "eu sou bonito?" ou "sou galinha se ficar com dois na mesma noite?" devem ser discutidas sem juízo de valor."

Timidez. Piadinhas, brincadeiras de mau gosto e risadas nervosas em debates sobre sexo são comuns. Para evitar constrangimentos, o Colégio Albert Sabin separa as turmas em meninos e meninas e utiliza uma caixa onde os alunos depositam perguntas sem se identificarem. "Assim, o ambiente não os intimida e os mais envergonhados participam", explica a diretora pedagógica Giselle Magnossão.

Os professores defendem que, para conversar sobre sexo com naturalidade, é preciso ter vínculo afetivo com a turma. "É impossível começar um curso desses se a turma não se conhece", diz a professora Cândida Gancho, do Colégio Bandeirantes. Para a professora de Filosofia do Colégio Oswald de Andrade, que atua no Grupo de Promoção da Saúde da escola, os jovens se soltam mais quando o debate foge do lugar comum. "Temos de situar as questões do sexo na vida deles, discutindo também a identidade de quem está se desenvolvendo muito rápido."

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