Tanque sírio mata quatro pessoas perto da fronteira turca

Tropas sírias mataram quatro moradores de um povoado na quarta-feira, disse um ativista, durante nova investida das forças do governo lideradas por tanques numa ação que já levou milhares de sírios a se refugiarem do outro lado da fronteira noroeste com a Turquia.

KHALED YACOUB OWEIS, REUTERS

29 Junho 2011 | 12h23

"Os quatro morreram em disparos aleatórios feitos contra o vilarejo de Rama por metralhadoras de tanques, algo que vem se tornando comum nestes ataques não justificados. Os tanques começaram a disparar sobre os bosques nos arredores e depois fizeram disparos contra o vilarejo", disse à Reuters Ammar Qarabi, presidente da Organização Nacional Síria de Direitos Humanos, falando do Cairo, onde está exilado.

O ataque a Javal al-Zawya, uma região 35 quilômetros ao sul da Turquia onde vêm se alastrando os protestos contra o governo de Assad, foi lançado durante a noite, um dia depois de as autoridades terem dito que vão convidar opositores para negociar em 10 de julho, visando preparar o diálogo prometido pelo presidente Bashar al-Assad.

Líderes da oposição rejeitaram a oferta, dizendo que ela não é digna de crédito enquanto continuarem as mortes e prisões em massa. Os Comitês de Coordenação Local, principal agrupamento ativista do país, disseram em comunicado na quarta-feira que mil pessoas foram presas arbitrariamente em todo o país apenas na última semana.

Qarabi disse que "Jabal al-Zawya foi uma das primeiras regiões da Síria onde o povo saiu às ruas para reivindicar a queda do regime. Agora os ataques dos militares chegaram a essa região e provavelmente resultarão em mais mortes e mais refugiados indo para a Turquia."

Qarabi disse que baseou suas informações em depoimentos de várias testemunhas. A Síria proibiu a presença da maior parte de mídia internacional, dificultando a verificação independente de relatos sobre violência.

Um morador de Jabal al-Zawya disse que ouviu fortes explosões durante a noite nos vilarejos de Rama e Orum al-Joz, a oeste da rodovia que interliga as cidades de Hama e Aleppo.

"Meus parentes que vivem ali dizem que os disparos são aleatórios e que dezenas de pessoas foram presas", disse ele.

Outro morador disse que 30 tanques foram a Jabal al-Zawya na segunda-feira, partindo do povoado de Bdama, na fronteira turca, onde soldados invadiram casas e queimaram plantações.

Ativistas de direitos humanos dizem que as tropas, forças de segurança e pistoleiros de Assad já mataram mais de 1.300 civis desde que o levante em favor de liberdade política irrompeu na planície de Hauran, no sul do país, em março. Esse número inclui 150 pessoas mortas em uma campanha de terra arrasada contra vilarejos e cidades em Idlib.

Os ativistas dizem que dezenas de soldados e policiais também foram mortos por terem se recusado a disparar contra civis. As autoridades sírias afirmam que mais de 500 soldados e policiais morreram em enfrentamentos com "grupos terroristas armados", aos quais atribuem a maioria das mortes de civis.

Assad vem sendo criticado por governos ocidentais pela campanha militar para sufocar o levante. O chanceler francês, Alain Juppe, vai se reunir com seu colega russo esta semana e discutir o impasse sírio, na esperança de convencer Moscou a apoiar uma resolução da ONU condenando a Síria.

O governo turco também vem criticando Assad cada vez mais, depois de apoiá-lo em suas iniciativas para melhorar os laços sírios com o Ocidente e buscar um acordo de paz com Israel.

A Turquia divide uma fronteira de 840 quilômetros com a Síria, país de maioria sunita que é governado por uma hierarquia pertencente à seita minoritária alauíta, um ramo do islã.

A Sawasiah, outra organização síria de direitos humanos, chefiada pelo advogado Mohannad al-Hassani, disse que a campanha de segurança que desde março resultou na prisão de mais de 12 mil pessoas em todo o país vem se intensificando nos últimos dias.

De acordo com a Sawasiah, na terça-feira forças de segurança prenderam na província oriental de Hasaka um político do partido curdo Mustaqbal, Farhad Khader Ayou.

(Reportagem adicional de John Irish em Paris e Keith Weir em Londres)

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