Teatro afrodisíaco

Ex-chefe do FMI poderia ter acesso a qualquer acompanhante profissional, mas a fantasia do déspota exige mais: a 'autenticidade do desejo' do outro

Christian Ingo Lenz Dunker, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h29

Durante o século 18 o Ocidente cristão formou a ideia de que concentrar poder demais é um péssimo hábito. Para evitar os perigos do poder em excesso é bom, por exemplo, dividir para governar, separar poderes, refrear a força do carisma, separar a galinha da raposa, não comer a carne onde se ganha o pão. Mas, assim como nas histórias em quadrinhos, o nascimento do herói da prudência é acompanhado pelo surgimento do vilão.

Este anti-herói do imaginário político moderno é representado pelo déspota oriental. O sultão que não conhece limites confunde poder com autoridade, quer tudo para si, principalmente mulheres. Desde as Cartas Persas de Montesquieu o Oriente que nós fantasiamos é a reunião entre poder sem limites e sexo sem restrições. É o nascimento de uma fantasia política e uma experiência de poder que funciona exatamente como a fantasia inconsciente descrita pela psicanálise. Não que o poder seja afrodisíaco, mas ele tem esse efeito colateral de querer ser colocado à prova, de passar da potência ao ato. É assim que ele foi pensado como uma espécie de autossuperação perpétua, uma substância perigosa que uma vez tocada nos leva a querer sempre mais. Por isso o déspota oriental era representado como um glutão solitário, sem amigos leais, cujo poder era simbolizado pelo número de mulheres.

Uma vez visitei um harém em Istambul. Fiquei impressionado com o fato de que as mulheres ficavam embaixo, em uma espécie de porão, escuro, com pé-direito alto e chão frio, ao passo que em cima funcionava a suntuosidade esperada dos palácios com seus espelhos e salas de decisão. Ao produzirmos regras que limitavam o poder dos reis, criamos uma fantasia residual, um porão no qual sonhávamos em ser déspotas, e atribuíamos esse desejo sem limites ao nosso vizinho, o Oriente. E até hoje, entre tantos detalhes improváveis na história de Bin Laden, a conversa acaba indo sempre para as tais 72 virgens. Essa fantasia nos ajuda a entender por que tantos homens de sucesso e poder frequentemente incidem em uma espécie de excesso sexual.

Não creio que haja qualquer vocação natural para perversão entre os poderosos, nenhuma maldade essencial que explicaria por que eles são afinal poderosos, mas em uma espécie de efeito de insalubridade, relativa à economia libidinal a que são expostos. Regra geral: na vida do déspota o que se ganha no exercício de poder perde-se em reconhecimento de autoridade. Tudo porque ele não sabe dividir direito. As virgens inocentes são como pobres donzelas que ainda não aprenderam que poder é uma coisa, autoridade outra. Por isso elas funcionam, na fantasia do déspota, como um elixir de rejuvenescimento de sua autoridade perdida.

Freud descreveu uma fantasia correlata típica: salvar uma mulher decaída moralmente, tornando-se assim um verdadeiro herói aos seus olhos. Entende-se por tal fantasia como um homem pode escolher uma mulher mais jovem, não porque ela é mais bela ou atraente, mas porque ela o faz se sentir mais respeitado e admirado. Ela o nutre com essa mistura perdida e indiscernível de poder e autoridade. É por isso que nas histórias em torno da sexualidade excessiva dos poderosos há sempre mulheres supostamente subalternas em termos de poder: estagiárias, camareiras, menores de idade. Não é apenas covardia, mas também satisfação erótica baseada na dominação combinada com a prestação de "serviço humanitário" de proteção e benevolência.

Essa mistura do poder da criança mimada com o efeito de admiração do oprimido alia duas condições importantes: rapidez na produção do efeito amoroso (a imagem do príncipe encantado) e descompromisso necessário para desligar-se rapidamente ao final da operação (a praticidade da performance no mundo do trabalho). Lembremos que a fantasia do déspota é convocada quando o rei se vê diante de algumas restrições. Imagine-se a impotência de Bill Clinton diante da má vontade do Congresso americano. Ou de Arnold Schwarzenegger diante da contestação legislativa contra a qual ele não pode agir como Exterminador. Daí para a Californication é um passo. Não é o passo de cegueira arrogante de quem se imagina acima da lei, mas o passo em falso de quem procura desesperadamente recuperar sua autoridade, que as regras sujas da política ou do mundo corporativo teimam em não respeitar. Não é que o sexo prolongue as vias da ganância de poder como sua extensão libidinal - é que o sexo representa e simboliza a limitação e impotência do poder diante da autoridade e do amor.

Um ator como Hugh Grant poderia ter qualquer mulher, mas escolhe uma humilde profissional do sexo que oferece seus serviços na rua, com a qual acaba sendo flagrado em escândalo. O presidente do FMI poderia ter acesso a qualquer acompanhante profissional, mas faz parte da fantasia do déspota que seu poder seja mais que um poder do dinheiro, da força ou da coerção: é preciso que esse poder inclua a autenticidade ao desejo do outro. O fim do vazio solitário, comum na vida dos poderosos, acontece porque ele acha que naquele instante a subalterna, realmente vai se encantar com seus dotes e qualidades. O sonho de todo consumidor de sexo profissional, como parece ser o caso de Berlusconi, é encontrar pelo menos uma que o deseje pelo que ele é... e não porque ele é poderoso, famoso e está pagando. É o sonho de todo trabalhador compulsivo, que em meio a seu cotidiano sem tempo, guiado pelo fluxo de demandas, agendas e compromissos do qual se sente escravo, se infiltre e se interponha um instante de desejo autêntico.

Aqui fica claro o segundo truque dessa fantasia inconsciente: nós achamos que estamos no controle, mas é ela que está nos comandando, exatamente ao nos fazer pensar que estamos no controle. Infelizmente, ou felizmente, dependendo de qual lado você está na fantasia, é isso mesmo que esses episódios acabam produzindo, ou seja, uma deposição do rei do sexo. A descoberta cruel de que o poder vai até o pé da cama. O déspota perde tudo, expõe-se ao ridículo e degrada sua já combalida autoridade. Pode então começar outra vez, como escravo, indefeso e subalterno, mas livre de compromissos, responsabilidades e encargos, como aquela que ele imaginava poder um dia salvar.

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER, PSICANALISTA, PROFESSOR LIVRE-DOCENTE DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP, É AUTOR DE O CÁLCULO NEURÓTICO DO GOZO (ESCUTA)

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