Teatro russo de luz e sombras

Num jogo de falsas realidades, suposta modernização do Kremlin oculta a sobrevida de um sistema político fechado e centralizador

29 de janeiro de 2011 | 16h00

Da plateia do Fórum Econômico Mundial de Davos, a cientista política russa Lilia Shevstova ouviu o discurso do presidente Dmitri Medvedev com um misto de irritação e descrédito. "Medvedev veio se exibir ao capital estrangeiro em Davos. Veio depois de reconhecer a corrupção no país. Veio depois que cortes ligadas ao Kremlin mandaram prender empresários russos e confiscar suas companhias. Veio depois do ataque terrorista ao aeroporto", enumera a estudiosa do sistema político russo e pesquisadora do Carnegie Endowment for International Peace. E, com ironia, acrescenta: "Esses eventos mostram muito bem o ‘clima benevolente’ que aguarda o investidor estrangeiro na Rússia". Em seu novo livro, The Lonely Power, (O Poder Solitário), de 2010, Lilia avisa: o mantra de modernização do Kremlin pode ser sedutor, mas esconde o esforço de manter vivo um sistema político fechado, centralizador e baseado na personificação do poder, principalmente na imagem de Vladimir Putin. "Construir falsas realidades é o passatempo favorito dos políticos russos", diz Lilia em entrevista concedida ao Aliás, por email, numa pausa entre as palestras do Fórum.

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Tango russo

"Imagine o tango argentino dançado por dois homens. Um conduz - Putin; o outro - Medvedev - acompanha o velho parceiro. Medvedev exerce o importante papel de seduzir o Ocidente, fingindo que o Kremlin tem uma faceta liberal. Mas o presidente não controla os recursos administrativos, militares e econômicos. Ele é o companheiro de marcha, ou melhor, o "esquenta-cadeira" do Kremlin. Uma patética cabeça falante. Ironicamente, muitos observadores do Ocidente acreditam que Medvedev seja um homem sério e importante. Isso permite concluir que a patota do Kremlin ainda construa "vilarejos Potemkin" (segundo a tradição, prósperos e falsos povoados erguidos às margens do Rio Dnieper para impressionar a imperadora Catarina II em sua viagem pela Crimeia em 1787). O passatempo favoritos dos russos: construir uma falsa realidade.

Éden do terror

Mentalize esta situação: um prédio público explode e o máximo que o prefeito faz é demitir a garota da limpeza. Esse é o modo como Putin e Medvedev lidam com ataques terroristas. Quando Putin veio ao poder em 1999, ele prometeu "varrer" os terroristas e garantir segurança para as pessoas. Desde então, o número de ataques aumentou seis vezes. Existe uma guerra civil no norte do Cáucaso e um ressentimento crescente da população não somente com os próprios ditadores locais, como o líder checheno Ramzan Kadyrov, mas com as tropas russas. O Kremlin tenta resolver o problema com a força bruta, mas só incita mais violência. As forças de segurança são patéticas e corruptas. Outros problemas são a ascensão de regimes sultânicos locais que usam violência contra a própria população, o desemprego e a degradação social. Existe mesmo um vácuo de poder, um espaço alienígena que vive de acordo com as próprias regras e sobre o qual Moscou não tem controle. O norte do Cáucaso está virando o éden do terrorismo, mais paradisíaco que Afeganistão e Paquistão.

Rússia para os russos

O nacionalismo russo é resultado de uma série de problemas sociais e da tentativa do Kremlin de usar o sentimento nacionalista em seus jogos políticos. "Rússia para o russos" é o slogan que muitos apoiam. As consequências disso podem ser sangrentas. Já temos gangues de jovens valentões matando não eslavos nas ruas. O Kremlin brinca com fogo ao usar nacionalistas radicais contra a oposição. E mais: o nacionalismo russo repercute na juventude do norte do Cáucaso. É um círculo vicioso. Há alguns anos, fundamentalistas islâmicos locais precisavam procurar candidatos a homens-bomba. Hoje há uma fila de pessoas esperando a vez de se explodir, incluindo mulheres.

Química pessoal

O establishment político do Ocidente se transformou em ferramenta crucial para a sobrevivência do poder personalizado de Putin. Os líderes ocidentais, com sua realpolitik, só se preocupam com seus interesses na área energética e de segurança. Para isso, estão rifando os valores democráticos. A Europa e os EUA legitimam a autocracia russa com as relações afáveis e toda a "química pessoal" entre seus líderes e Putin e Medvedev. Sarkozy e Merkel evitam criticar os russos. Berlusconi tem projetos comerciais com Putin. Ex-líderes ocidentais sentam-se nos conselhos de nossas estatais, conhecidas pela corrupção e proximidade com o Kremlin. A propensão de políticos ocidentais a serem corrompidos por nossa elite gera frustração na sociedade russa quanto aos ideais democráticos e liberais.

Ecos da Guerra Fria

A retomada do interesse da Casa Branca pelo Kremlin permitiu que a Rússia aumentasse sua influência internacional enquanto continuava a manter uma política repressiva em casa. Não há evidências de que o presidente Obama alguma vez tenha mencionado a mão dura com que o Kremlin conduz o país. Entretanto, os sorrisos trocados entre Obama e a cúpula russa são só performance. A cooperação bilateral é a mesma que a URSS tinha com os EUA há 20 anos. Não houve avanços significativos. A cooperação mais falada - o novo Start - é um resquício da Guerra Fria. É estranho que esse acordo seja apresentado como prova de confiança. Ao contrário, o fato de ambos os lados voltarem a discutir como limitar os arsenais nucleares é sinal de pura desconfiança mútua.

Tragédia russa

Sob Putin e Medvedev houve a degradação da sociedade russa em todos os segmentos. A classe média está em meio a corrupção e ameaças. As elites roubam o povo e vão se esconder no Ocidente. E eis a verdadeira tragédia russa: a intelligentsia abandonou seu projeto de país. A oposição começa a se movimentar, mas ainda é débil. É preciso muita coragem para que as pessoas se manifestem quando são ameaçadas, injustiçadas, presas. Jornalistas, blogueiros, empresários, artistas começam a protestar, mas os bolsões de ódio que se acumularam ao longo dos anos são significativos. A esperança é que a Rússia ainda não esteja perdida para sempre."

Lilia Shevstova é cientista política, pesquisadora do Carnegie Endowment For International Peace e autora de Lonely Power

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