Teatro tosco

Uma das manifestações culturais populares de Nápoles, na primeira metade do século passado, eram as sceneggiate. Peças de teatro curtas, que incluíam poesia e música, tinham estrutura fixa, em que se destacavam personagens como o isso ("ele", em dialeto local, na figura do herói) e o malamente ("o malvado"). Em galpões toscos, os napolitanos acompanhavam as peripécias da eterna luta entre o bem e o mal.

ANTERO GRECO, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

No Palmeiras de hoje, sempre com as raízes fincadas na Itália, ressurgiu a sceneggiata, agora recitada por canastrões e em palco alheio ? o Estádio Olímpico, de Porto Alegre. A cartolagem tentou assumir o papel do correto, ao anunciar, minutos após a derrota para o Grêmio, que excluía de sua società os vilões Maurício e Obina. Na visão oficial, ambos se mostraram indignos de vestir o sagrado manto verde ? ou azul ou amarelo marca-texto, sei lá ? por terem brigado no intervalo do clássico.

Os dirigentes acreditavam que a punição sumária, ao estilo de execuções camorristas, serviria de exemplo para o restante do elenco e funcionaria como uma satisfação prestada ao público alviverde. A dispensa de dois desagregadores deveria restabelecer a ordem na tropa, na avaliação imediata dos comandantes da expedição ao Sul. Grande bobagem.

O banimento foi tentativa grotesca de transferir para Maurício e Obina a responsabilidade de ir para o lixo um título que semanas atrás parecia tão certo quanto a eficiência milagrosa de San Gennaro. Os dois fizeram papelão e agiram como garotos que brigam em pelada de rua. Não é novidade, também não é comum, companheiros de time trocarem tapas e socos por uma jogada desastrada. Não se espera isso de profissionais, em nenhuma atividade, mas pode acontecer. Sobretudo em time de cabeça quente.

Antes de jogar os briguentos no fundo do mar, numa prática que lembra as vendette sicilianas, os donos do poder palestrino deveriam fazer uma reflexão e assumir parcela da culpa dessa situação constrangedora. Faz quase dois meses que o time desandou, perdeu o prumo, se entortou e desabou na classificação. O acúmulo de derrotas e empates por si seria suficiente para destroçar a autoconfiança de qualquer equipe. Ainda mais se for o Palmeiras, que tem torcida impaciente e que pega no pé como poucas.

Mas, em vez de surgirem bombeiros, apareceu gente jogando gasolina na fogueira. Muricy Ramalho achou que estimularia a tropa com a tática mais manjada de ver na imprensa o inimigo comum. Como supostamente deu certo em outras situações, o treinador considerou melhor despejar ironias nos repórteres que acompanham a rotina do clube do que botar o dedo na ferida e ver por que jogadores importantes sumiram na reta final. Ou esmiuçar o que Marcos quis dizer, dias atrás, ao sugerir que faltava comprometimento.

O presidente Belluzzo, festejado como boa novidade no anacrônico mundo dos coronéis da bola, encampou o discurso do torcedor destemperado ao prometer dar "porradas" no juiz Simon, depois do fiasco diante do Flu. A reação inflamada poderia ser entendida no calor da hora, após o 1 a 0 com o legítimo gol de Obina anulado no Maracanã. Belluzzo, porém, bateu na tecla nos dias seguintes, sem recuar.

O tom belicoso do técnico e do presidente se estendeu para as arquibancadas, que veem carrascos onde não deveriam, e contagiou atletas, assustados com as cobranças e apavorados com o fracasso, agora inevitável.

Nas sceneggiate napolitanas não importava se vencesse o bem ou o mal; o público sabia que era só ficção e se divertia. A derrocada do Palmeiras é real e não tem graça nenhuma ? pelo menos para sua torcida.

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