Tecnologia para combater o medo

Alguns meses atrás visitamos a cidade de Juarez, no México, do outro lado da fronteira com os EUA - e, ainda assim, tão distante. A cena era quase surreal: descemos do avião e fomos recebidos por um comboio de carros blindados e caminhonetes cheias de policiais. Era a "policía federal", portando metralhadoras e usando máscaras para ocultar suas identidades.

O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h07

Procuravam criminosos violentos. Enquanto isso, todos aqueles com quem nos reunimos - líderes da sociedade civil, ativistas, representantes do setor privado e jovens - procuravam respostas. A cidade foi dominada pelo crime, e suas vidas foram tomadas pelo medo. Se sentiam derrotados, desiludidos e desamparados.

Perguntaram a nós: o que podemos fazer? Para nós, ao menos parte da resposta era óbvia: tecnologia.

Os cartéis que vagueiam por Juarez são modernos. Contrabandistas usam braceletes com GPS para serem rastreados - os mesmos pontos azuis que ajudam os usuários de smartphones a chegarem do ponto A ao B são usados pelos reis do crime.

Sabemos que a tecnologia pode ser usada para o bem. Mas, por si mesma, a conectividade não perturbará as redes ilícitas. As pessoas tendem a supor que "nomear e constranger" é suficiente para resolver as coisas - como se, depois que o vídeo de um crime aparecesse online, o mundo passaria a pressionar os malfeitores. Está claro que pressão externa raramente soluciona os problemas de instituições fracas ou corruptas. A pressão deve ser interna, partindo dos que são diretamente afetados e têm incentivos e mecanismos para reformar o mundo em que vivem.

Pensemos numa situação bastante comum em Juarez: um homem coopera com a polícia - ou supõe-se que tenha cooperado - e sua mulher torna-se alvo. Muitas pessoas ficam sabendo de ocorrências deste tipo, mas não as informam à polícia, pensando: por que correr o risco quando é tão pequena a probabilidade de uma mudança real?

Quando as pessoas pensam em se manifestar apesar do medo, elas quase sempre o fazem em termos pré-internet. As vítimas encontram indivíduos ou instituições para suas confidências. O modelo básico de interação é o telefone ou a transmissão. O sistema não funciona onde a vingança é comum.

Pensemos agora numa rede como a internet, na qual as fontes enviam suas mensagens em pequenos pedaços - ou pacotes - marcados com o endereço do seu destino. Cada elo da rede pode não conter a mensagem completa. Transmissor e receptor não precisam se comunicar diretamente nem ao mesmo tempo. Eles não precisam saber a localização um do outro. Não há um ponto único de falha, nem hierarquia rígida.

Em Juarez vimos seres humanos aterrorizados que precisam levar sua informação às mãos certas. Com a mentalidade de troca de pacotes, percebemos que pode haver uma solução para o medo.

A tecnologia pode mediar esta troca, como servidores transmitindo pacotes na internet. As fontes não precisam sair do anonimato. Não é preciso confiar numa única pessoa ou instituição. Por que os potenciais informantes não podem simplesmente lançar pacotes criptografados na rede e deixar que as ferramentas conduzam a informação ao destino correto? Estamos falando de crowdsourcing: os cidadãos fazem um esforço de para ampliar a conscientização dos incidentes e, em resposta, as autoridades fazem um esforço de crowdsourcing na promoção da justiça. O truque está no anonimato garantido a todos, por mais que um sistema deste tipo atribuísse uma identificação única a cada usuário para manter registros e oferecer recompensas.

Tecnologia é apenas ferramenta. Os moradores de Juarez desejam desesperadamente tecnologias que, quando usadas pelas pessoas certas, façam a diferença. Haverá consequências reais da tentativa, mas não podemos deixar que o medo nos impeça de inovar. Num mundo no qual os criminosos são mestres da inovação, as empresas de tecnologia podem virar o jogo no longo prazo, ajudando a conferir uma vantagem para quem mais precisa dela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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