Tem rato na cozinha!

Em Ratatouille, quem domina as técnicas gastronômicas é o ratinho Remy. Mas como um ser tão pequeno consegue cozinhar? Saiba aqui um pouco mais sobre o filme, que estréia amanhã nos cinemas, e leia a crítica feita sobre o animado restaurante Gusteau's

Luiz Américo Camargo, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 06h29

Remy é um cozinheiro da estirpe dos grandes chefs franceses. Tem sentidos dotados de acuidade sobre-humana, notável senso de equilíbrio, é rigoroso e, acima de tudo, um clássico - não fale com ele de vanguardismos, por favor. Tudo bem que seja um rato. Mas essa limitação anatômica (e sanitária) não impede que ele vá para a cozinha e crie entradas e pratos de deixar Câreme e Escoffier orgulhosos. E esse é o ponto-chave (ao menos para seus realizadores) de Ratatouille, o novo longa-metragem de animação da Pixar: não importa se você é um roedor azul de olhos esbugalhados. Se for perseverante, chega lá. ''''Lá'''', no caso do ratinho, é Paris com vista para o Rio Sena. Mais precisamente no Gusteau''''s, restaurante mais luxuoso da cidade, porém, já em certa decadência. O talentoso Remy mergulhou no livro de receitas de Auguste Gusteau, chef-proprietário da casa, e absorveu todo o conhecimento do mundo. Descoberto na cozinha e, por razões óbvias, perseguido, o rato consegue voltar e dominar fogões e bancadas graças a Linguini, um rapaz que não sabe preparar nem sopa instantânea. Escondido sob a toque blanche (o chapéu em forma de cogumelo), Remy manda, o jovem executa e os pratos ficam ótimos. Se a história, contada assim, já é divertida, o que cativa em Ratatouille é o virtuosismo com que a animação retrata as entranhas de um restaurante francês tradicional. Durante quase seis anos, a equipe comandada pelo produtor Brad Lewis (de FormiguinhaZ) e pelo diretor Brad Bird (Os Incríveis) foi a restaurantes, estagiou com chefs, desconstruiu cada movimento envolvido no corte de uma simples cebola, na fervura de um caldo. Misturou Thomas Keller com Tour D''''Argent e chegou a um resultado intricado, porém fluente. A festa de lançamento mundial, à qual Paladar esteve presente, também foi em Paris. E com direito à música, queijos e vinhos nas margens do Sena, e presença de Ferran Adrià e Cyril Lignac, chef-celebridade francês ao estilo Jamie Oliver. Mas a cidade-sede do Gusteau''''s terá de esperar até agosto para que o filme entre no circuito comercial. Já os brasileiros podem vê-lo a partir de amanhã. QUEM É GUSTEAU? Os dois Brads - tanto o produtor Lewis quanto o diretor Bird - negam que o corpulento Auguste Gusteau tenha surgido a partir de uma inspiração real. Especulemos, então, nós mesmos. O porte? A silhueta avantajada parece a de Mario Batali. O potencial de intimidação física e psicológica lembra o de Santi Santamaria. O ar impaciente (e algo galhofeiro) é de Paul Bocuse. A generosidade bonachona está mais para Pierre Troisgros. Mas, apesar de ser um homem da alta cozinha, Gusteau tem mesmo é o maior jeito de apreciador de gororobas... Thomas Keller, o chef por trás do rato O gestual francês e a abordagem parisiense da culinária praticada por Remy são, na verdade, de origem americana. Thomas Keller, mais aclamado chef dos Estados Unidos, é o homem por trás do rato. Ele tem dois restaurantes com três estrelas no Guia Michelin (The French Laundry, na Califórnia, e Per Se, em Nova York), e foi o principal consultor da Pixar na composição da dinâmica da cozinha do Gusteau?s e do treinamento da equipe de criação de Ratatuouille. Keller morou em Paris, onde trabalhou com Guy Savoy e no Taillevent, mas não se pode dizer que seja um chef à francesa: a base de seu trabalho é clássica, mas com elementos contemporâneos e maciça utilização de produtos americanos. Ele declarou que, desde que leu o argumento do filme, em nenhum momento se concentrou na idéia repugnante de um rato assumir panelas e ingredientes. "Para mim, o aspecto principal da história sempre foi o do personagem que, mesmo fadado a ser um marginal, acaba triunfando", disse. O chef é dono ainda do bistrô Bouchon (na Califórnia e em Las Vegas), e autor de livros de receita, como o The French Laundry Cookbook e o What''''s Cooking?, este último inspirado no filme. Estrelas cadentes Restaurante pomposo e monumental, o Gusteau?s concebido pela Pixar surgiu a partir da sobreposição de várias casas parisienses tradicionais. Comandados por Brad Lewis, os criadores da animação beberam em fontes como Taillevent, Hélène Darroze, Guy Savoy, Le Train Blue. Mas se inspiraram principalmente na mistura de suntuosidade e decadência do Tour D?Argent, fundado em 1582 - muito procurado pelos turistas, mas nem tanto pela crítica especializada: nos últimos anos, perdeu duas de suas três estrelas no Guia Michelin. Com pratos clássicos e preços altos (o cafezinho custa 8), o Tour D?Argent se vale ainda de uma das mais belas vistas da cidade. Fica a poucos metros do Rio Sena, de frente para a Ilha de Saint Louis.

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