''Temos de fazer boas escolhas''

ENTREVISTA - Céline Cousteau: mergulhadora, produtora de documentários e educadora ambiental; neta do explorador Jacques Cousteau fala sobre a influência do avô na paixão pelo mar e por sua preservação

Alice Lobo, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Céline Cousteau mergulhou pela primeira vez aos 9 anos com seu avô, o explorador Jacques Cousteau, em Mônaco. Depois não parou mais. Nem ela nem ninguém de sua família. "Isso mostra a influência que uma única pessoa pode ter na vida de muitas outras", diz Céline, que divide com pai, tios, irmão e primos a paixão pelo mar e por sua preservação. "Temos nosso próprio exército."

Céline participa de expedições, mergulha, produz alguns documentários e apresenta outros, se dedica à educação ambiental de crianças e adultos e apoia causas de ONGs e empresas. Sua missão é conscientizar as pessoas sobre o ecossistema marinho. Em 2008, apresentou a série Mistérios da Costa do Tubarão, do Discovery Channel, e participou de um projeto da Ocean Future Society, ONG criada por seu pai, Jean-Michel Cousteau, cuja missão é filmar orcas. Como embaixadora do programa Clean Up the World, esteve no Rio há algumas semanas.

Como você se envolveu com o Clean up the World?

Em 2008 fui para a Austrália filmar um documentário para o Discovery Channel, conheci as pessoas do Clean up the World e eles me convidaram para ser embaixadora. Neste ano quis fazer algo mais, pois acho que apenas ser a cara da organização é insuficiente. Então resolvi recolher lixo em Copacabana com 800 crianças.

Qual foi o seu melhor mergulho?

Um bom mergulho tem a ver com as interações que estabeleço com animais e não com os locais onde vou ou sua beleza. A melhor foi quando cheguei perto de uma baleia corcunda e seu filhote. Senti paz, calma. Ela olhava para mim e sentia respeito, não ameaça. Claro que é preciso ter alguns conhecimentos, como saber que fazer bolhas ao respirar pode assustar os animais.

Você já teve medo ou experiências ruins mergulhando?

Sim. Estava mergulhando para filmar um barco naufragado para um documentário e a corrente marinha era muito forte. Eu era a menos experiente da equipe de produção. Pulei na água, me agarrei ao barco e fui descendo, segurando em uma corda. Quando havia descido cerca de cinco metros, me senti muito cansada. Em um momento de lucidez, me perguntei se valia arriscar minha vida e a das pessoas da equipe. Voltei para o barco e coloquei meu tanque no chão junto com meu ego. A decisão foi difícil, mas precisamos acreditar nos nossos instintos. Mais tarde, a corrente acabou, mergulhei e vi o barco.

Quais são seus gostos na gastronomia? É vegetariana, come apenas alimentos orgânicos?

Não sou vegetariana, mas tenho comido cada vez menos peixes. Tento comprar alimentos orgânicos, cultivados localmente e prefiro os da estação. Em Nova York temos muitas feiras, especialmente no verão. Cada vez mais supermercados têm seção de orgânicos.

Por que você come cada vez menos peixes?

Há vários tipos de peixes que não devemos comer por diversas razões. Primeiro, alguns não são pescados de maneira sustentável. Segundo, porque, dependendo de como e onde foram criados, podem nos fazer mal. Salmões do Chile pegaram um vírus anos atrás e até hoje recebem 350 vezes mais antibióticos do que os da Noruega. As pessoas acham que estamos separados do oceano, mas impactamos fortemente a vida marinha. Se pescamos uma quantidade absurda, causamos desequilíbrio que pode culminar no colapso do ecossistema, que, por sua, vai impactar o ser humano. Algumas pessoas pescam camarão de maneira irracional. Jogam a rede e, quando puxam, retiram, além dos camarões, outros animais e plantas, que depois são jogados mortos na água.

Como você faz com a cozinha francesa? Não come carne?

Quando como carne, tento saber se o gado foi alimentado com grama, sem hormônios e antibióticos. Como a típica comida francesa no fim de ano, quando vou à França. Minha avó é uma ótima cozinheira e minha família, boa de garfo.

É quando você abre exceção?

É. Durante o dia fazemos várias escolhas. Se estou em um hotel, posso usar a mesma toalha por vários dias e não mandá-la para lavar diariamente, o que seria um desperdício de água. A gente também pode escolher o que come. Com informação, não temos desculpa para não fazer boas escolhas. Mas isso não significa que não podemos abrir exceções.

Qual é o seu próximo projeto?

Estou criando uma empresa de produção cinematográfica e, paralelamente, uma fundação. A produtora criará séries para televisão e internet, com temas culturais, sociais e ambientais. Vamos mostrar situações de comunidades e soluções que foram dadas para contornar determinados problemas. São histórias reais. Parte da verba será destinada às populações e comunidades que visitamos. Vamos divulgar os projetos online e recolher doações para ajudar as causas.

O que motivou você a fazer isso?

Uma expedição que fiz para a Amazônia, que, originalmente, se chamava Return to Amazon. Queria voltar para um local que tinha visitado havia 25 anos com a minha família, no barco Calipso, do meu avô. As comunidades, durante as negociações para a nossa chegada, fizeram exigências que eu não podia cumprir por razões morais. Elas queriam satélite, televisão, e eu não queria ser a pessoa a levar isso para lá. Fomos a uma comunidade indígena que sofria com vários problemas de saúde, entre eles malária e hepatite. Trabalhei durante um ano para tentar ajudá-los a criar um sistema de saúde decente. A expedição foi batizada de Amazon Promise. Conhecer lugares assim, fazer documentários e mostrar para as pessoas e empresas que elas existem é um meio de tentar ajuda essas populações.

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