Tempo e família na ótica triste de Elia Suleiman

O Buster Keaton da Palestina segue mostrando como é ser árabe em Israel no proustiano e autobiográfico O Que Resta do Tempo, que ele próprio interpreta

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

Há algo de triste na figura de Elia Suleiman. Os olhos grandes, a boca caída compõem uma máscara que facilmente poderia ser a de um clown. E esse palhaço quase não fala, passa silencioso pelos próprios filmes, evocando Jacques Tati, o M. Hulot, ou mais ainda Buster Keaton, o lendário homem que nunca ria. Suleiman, não em pessoa, mas por meio de seus filmes, está de novo na Mostra. Depois de Intervenção Divina, ele crava outro grande filme - O Que Resta do Tempo. Exibido em Cannes, em maio, ficou fora da premiação do júri presidido por Isabelle Huppert. Pior para o júri. Em quatro fragmentos temporais, Suleiman conta a história de seus pais, a dele e a da Palestina. Para chegar a refletir sobre o que resta do tempo, você tem em primeiro lugar de buscá-lo. Um filme proustiano?

Por que contar a história de seus pais?

Porque falar na primeira pessoa me libera para ser mais autêntico e tocar em problemas que não são só meus, ou de minha família. Meus pais são palestinos e optaram por permanecer na região, após a criação de Israel. Isso nos transformou em estrangeiros em nossa terra. Eu terminei saindo. Fui viver em Nova York, em Beirute, em Paris. Já havia começado a contar essa história em Crônica de Um Desaparecimento. Na verdade, Crônica e Tempo terão um desdobramento, pois se trata de uma trilogia. Meus pais morreram, mas ele, que foi resistente em 1948, me deixou seu diário. Minha mãe escrevia cartas. Trabalhando sobre esses elementos, resolvi buscar o que resta do tempo, ou investigar qual é o tempo que nos resta neste mundo tão explosivo. É um filme proustiano, sim, mas eu acho que também é sobre o absurdo do mundo, a partir de pequenos absurdos do cotidiano de quem vive no Oriente Médio. O público ri, mas essas pequenas coisas têm um significado diferente para quem é de lá.

Você escolheu um ator muito bonito para representar seu pai...

Obrigado, o cinema nos permite certo grau de idealização, mas eu sempre o via, pela integridade, pela resistência, como um herói. A primeira parte do filme é feita de reconstituição histórica. Na segunda, ataco o que realmente importa, a casa, a tristeza do que desapareceu mas também a do que ficou.

Vi um filme em Paris de Hirokazu Kore-eda, Still Walking, que me parece muito próximo do seu. (Ele está na Mostra e passa hoje, como Seguindo em Frente.) Ambos compartilham o sentimento de que a família é importante e devemos amar nossos pais, enquanto estão por perto.

Cada história de família é diferente, eu sei, mas O Que Resta do Tempo nasceu desse amor, dessa vontade.

Serviço

O Que Resta do Tempo (França-Palestina, 105 min.), de Elia Suleiman

Cine Bombril 1 - Hoje, 14 h

Cinemark Eldorado - Dom., 19h30

Reserva Cultural 1 - 4.ª, 20 h

Cinesesc - Dia 30, 18h50

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