Tiago Santana/Divulgação
Tiago Santana/Divulgação

Tempo grande

Cearense do Crato, Tiago Santana, 47 anos, cresceu no meio da fé. Ali pertinho estavam Juazeiro do Norte, seus romeiros, suas promessas, seus ex-votos. Não é por acaso que sua fotografia seja impregnada de fragmentos, cortes bruscos, troncos, cabeças, pedaços de gente. “Os ex-votos estão dentro de mim. Cresci com eles, fazem parte do meu vocabulário e sem que eu notasse foram parar na minha fotografia”, diz. É uma espécie de carimbo – jamais redutor – de uma obra fascinante presente em museus e coleções particulares do Brasil e de fora. E está de volta neste trabalho sobre o universo de Luiz Gonzaga, só que de maneira expandida. Há dois anos, valendo-se de uma câmera de formato panorâmico, Santana registra o sertão pernambucano em torno de Exu, terra do compositor. Em dezembro, lançará o livro O Céu de Luiz, com fotos suas e texto do jornalista Audálio Dantas, parceiro no projeto anterior, O Chão de Graciliano. A seguir, o fotógrafo fala de Gonzagão, Padre Cícero, Patativa do Assaré e outros grandes encontros.

Christian Carvalho Cruz,

28 de setembro de 2013 | 17h00

O projeto surgiu por causa do centenário de Luiz Gonzaga?

Tiago Santana-Não só. Há algumas referências que norteiam minha vida de fotógrafo. Primeiro, Patativa do Assaré, poeta popular que me ensinou a entender e a ver o sertão. Junto dele, dos cordéis, as xilogravuras em preto e branco. Depois, Padre Cícero e todo o ambiente de mistério e fé em Juazeiro do Norte, região onde nasci e cresci. E aí tem o som desse lugar. Luiz Gonzaga é trilha sonora do universo no qual eu dei meus primeiros passos no mundo.

E por que o formato panorâmico?

Tiago Santana--Minha fotografia é muito cheia de narrativas, diversas histórias acontecendo na mesma cena. Sempre fiz isso usando lentes grande-angulares. Essa câmera, que produz negativos em 6 cm x 17 cm, me ajuda a ampliar essa possibilidade. Em cada rolo de filme eu só consigo quatro fotos. Aí paro tudo, troco o filme... Quer dizer, acabo expandindo as horas e entro em sintonia com o tempo do sertão, mais lento, bem diferente daquele que a vida contemporânea nos impõe nas grandes cidades. Bom, mas não é só isso...

O que tem mais?

Tiago Santana-A fotografia pra mim sempre foi um pretexto para estar nesses lugares com essas pessoas. São os encontros que me interessam, me formam e me preenchem. E tal vivência é tão forte, tão rica, que às vezes o resultado fotográfico não dá conta. Então, o formato panorâmico, mais usado para fotografia de paisagem, é uma tentativa de tornar mais visível a riqueza das minhas experiências no sertão, dos meus encontros com os sertanejos. Não sei se consigo, mas tento. Nesse formato, reforço minhas paisagens humanas.

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