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Tempos de medo na Cidade dos Patifes

Em 1919, 12 dias de desastres apavoraram uma então mal-afamada Chicago, mas também fizeram nascer a metrópole rival de Nova York

Lucia Guimarães, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2012 | 17h09

Bloqueio do espaço aéreo. Reforços policiais enviados por três Estados. Expectativa de milhares de manifestantes e as prisões inevitáveis. Se a dor de cabeça de sediar a cúpula da Otan, a partir de hoje, estragar o domingo dos moradores de Chicago, eles podem aproveitar o dia de folga para ter uma medida de como sua cidade é um paraíso, comparada à Chicago de um século atrás.

 

Mais precisamente a Chicago de 1919 que, conta o autor Gary Krist, deu origem à metrópole moderna e rival de Nova York. Krist acaba de lançar pela Random House City of Scoundrels, The 12 Days of Disaster That Gave Birth to Modern Chicago (Cidade de Patifes: Os 12 Dias de Desastres que Fizeram Nascer a Chicago Moderna), crônica do verão de 1919, quando “a mais jovem metrópole do mundo” foi sacudida por uma tragédia aérea, um crime hediondo, revoltas raciais e uma greve de transportes. Chicago acordou do pesadelo sob a liderança de William Hale Thompson, o Big Bill, um dos mais corruptos caciques de sua história recheada de políticos escroques, o mesmo prefeito à frente da transformação que iria estimular Chicago a liderar a arquitetura urbana do começo do século 20. 

 

Scott Turow, o mais lido romancista de Chicago, comenta o livro de Krist: “Chicago ainda exibe a aspereza da força policial, os políticos durões, uma forma de administração pública que a população aprecia. Mas é uma cidade mais tolerante e menos segregadora que a de 1919.” Em números, a população, no entanto, continua quase a mesma, 2.8 milhões de habitantes. A seguir, trechos da conversa do Aliás com Gary Krist.

 

O antes

“O ano de 1919 começou com otimismo, em boa parte graças ao fim da 1ª Guerra. A epidemia de influenza estava sendo vencida. A cidade tinha um plano ambicioso de reforma estrutural. Mas o otimismo logo daria lugar à competição por moradia e trabalho. Negros chegados do sul rural, durante a Grande Migração, tinham ocupado empregos dos brancos. E os soldados negros que haviam lutado com distinção na guerra voltaram com a expectativa de igualdade. Episódios isolados de tensão racial começaram a pipocar.

21 de julho 

“O Wingfoot Air Express, da Goodyear, decolou do Grant Park em sua glória prateada. Mas, bem na hora do rush, os espectadores assistiram horrorizados ao mergulho do dirigível em chamas sobre o prédio do Illinois Bank Trust. O público pediu leis para impedir outro acidente, houve histeria. A causa da tragédia, que matou 13 pessoas e feriu dezenas, não ficou clara. A reação refletiu a angústia sobre o controle das novas tecnologias.

22 de julho 

“Janet Wilkinson, de 6 anos, desapareceu quando voltava para casa. A confissão do suspeito só foi arrancada cinco dias depois. Thomas Fitzgerald atraiu a menina para seu apartamento, onde a estrangulou. O corpo foi enterrado no porão do prédio. A confissão estimulou a paranoia contra os estranhos. 

23 de julho

“O prefeito, que se autoapelidava Big Bill, the Builder (Grande Bill, o Construtor), partiu para uma festa de cowboys no Estado do Wyoming, levando mais de cem amigos, entre eles membros da administração municipal e o comandante da polícia de Chicago. Os sindicatos de trabalhadores de transportes públicos ameaçaram paralisar a cidade.

27 de julho

“Remando numa jangada, cinco adolescentes negros aportaram numa praia do Lago Michigan, conhecida como “só para brancos”. Um deles, supostamente apedrejado por jovens da praia, se afogou. A revolta se espalhou, primeiro pelo cinturão negro do South Side, que foi cercado pela polícia. Em três dias, até o conhecido Loop, centro histórico e comercial, era cenário de batalhas. 

29 de julho

“Decretada a greve nos transportes. Os que tinham que trabalhar usaram cavalos e carretas de transporte de leite. As ruas se encheram mais ainda de tráfego desordenado.

31 de julho

“O prefeito pede o apoio da milícia estadual, que sufoca a revolta em poucas horas. Os distúrbios de 1919 mataram 38 pessoas, feriram 500 e deixaram milhares de desabrigados. Foram cinco dias que marcaram profundamente a população. E Chicago continua a ser, do ponto de vista residencial, a mais segregadora grande cidade americana.

Agosto e o futuro

“Big Bill sabia que grandes projetos de infraestrutura eram máquinas de fazer dinheiro através de propinas e desvios de verba. Foi isso que fez. Deu a Chicago seu sistema de parques, a ponte da Av. Michigan, que liga o norte ao sul, roubou com apetite e ainda se e elegeu para um terceiro mandato, na Chicago dominada por Al Capone nos anos 20.” 

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