Tentativa de diálogo entre homens e máquinas

Alguém enche a tela com frases imprevisíveis e o computador responde tentando demonstrar traços de humanização, para delírio ou frustração da platéia. Parece um simples jogo de perguntas e respostas, mas está longe disso. É coisa séria e envolve um time de especialistas das mais variadas áreas do conhecimento reunidos no The Loebner Prize, o evento mais popular em todo o mundo no fascinante campo da inteligência artificial.O prêmio de US$ 100 mil é tentador, mas a possibilidade de alguém ficar com a bolada ainda é remota. Desde 1961, quando o desafio foi lançado pela primeira vez, no Boston?s Computer Museum, o máximo conseguido por renomados estudiosos de importantes centros de pesquisas foi a medalha de bronze e um minguado cheque de US$ 2 mil, a título de consolação. Não deve ser diferente, este ano.O prêmio, uma criação do sociólogo americano Hugh Loebner, é uma tentativa de demonstrar de forma prática o célebre Teste de Turing, referência ao matemático inglês Alan Turing, que há mais de 50 anos lançou uma indagação que até hoje desperta paixões e muita polêmica. Afinal, uma máquina pode pensar?Turing acreditava que se um computador fosse suficientemente inteligente para confundir um ser humano, a ponto de tornar impossível a distinção entre um e outro, a resposta à sua própria pergunta seria sim. Ele morreu quatro anos depois de ter lançado a dúvida e bem antes dos primeiros resultados obtidos por Loebner. Impossível saber se manteria viva ainda hoje tamanha convicção.O próprio desafio promovido por Loebner não é uma unanimidade no mundo acadêmico. Há quem o considere pretencioso demais ou uma visão simplista das teorias de Turing. Loebner, é claro, não pensa assim e diz que o fato de a máquina tentar responder aquilo que o júri espera ler não torna menor o desafio. Continua sendo uma questão matemática, acredita.O primeiro passo na trilha sugerida por Turing ocorreu há 40 anos, com o robô Eliza, uma espécie de psicanalista virtual criada pelo pesquisador Joseph Weizenbaum, do MIT. Eliza ficou famosa e é referência obrigatória nas discussões e estudos sobre Inteligência Artificial. Mas o seu sucesso tem uma explicação aparentemente simples: ela jamais respondia de forma direta e frequentemente devolvia a bola para o "paciente" com frases curingas, do tipo "fale-me a respeito".Com o passar do tempo, o próprio mercado cunhou a expressão "chatterbot" para enquadrar Eliza e todos os seus sucessores, inclusive os que estarão disputando o Prêmio Loebner. Chatterbot é um programa-robô criado para simular uma conversação. Para cada palavra ou frase digitada pelo homem, o software tenta associar palavras ou frases que façam algum sentido. Quando não consegue, muda de assunto e procura atrair o interlocutor para áreas específicas para as quais foi previamente programado.Encarado dessa maneira, o Prêmio Loebner é o máximo e o palco perfeito para se acompanhar de perto os esforços na tentativa de diálogo entre homens e máquinas. O site oficial (www.loebner.net/Prizef/loebner-prize.html) oferece a transcrição dos "diálogos" entre os jurados e todos os chatterbots vencedores nos últimos anos.

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