Terapia pelo Facebook

Pacientes postam na rede social informações sobre seu câncer e o tratamento a que se submetem, recebendo solidariedade dos amigos

Sérgio Telles*

10 Março 2012 | 16h38

Doenças graves e morte são temas desaprovados no trato social. Não é difícil entender o porquê. Elas atacam diretamente nosso narcisismo ao romperem com as fantasias de onipotência e invulnerabilidade, escancarando o desamparo e apontando de forma muito concreta para aquilo que mais negamos, apesar de ser a única certeza na vida: nossa finitude.

 

Se a postura de fuga e distanciamento dessa questão é própria do ser humano, isso fica ainda mais intensificado na sociedade atual, comandada pela publicidade a nos vender a ideia de que a completude decorre da aquisição de produtos materiais, na qual o espírito do tempo impõe que todos sejam compulsoriamente felizes, plenamente realizados nos planos profissional, afetivo e financeiro, caso contrário se é descartado como loser, fracassado. Nesse contexto, qualquer coisa que empane tal brilho é afastada, negada, reprimida. Doença e morte, definitivamente, não cabem nesse universo.

 

Mas, por serem parte inalienável da realidade, elas não se deixam facilmente reprimir. Estão sempre presentes em nossas conversas, apesar do empenho em afastá-las ou ignorá-las. O mesmo ocorre nas mídias regidas pela ideologia do consumo e pela lógica do espetáculo, obrigadas que são a noticiar a doença e a morte dos poderosos e das celebridades; a morte em massa ocorrida nas grandes catástrofes naturais; a morte nas guerras, atentados e acidentes de vários tipos; a morte matada e violenta acontecida nos crimes da periferia, matéria-prima dos programas policiais que gozam de imensa popularidade não só entre os menos favorecidos.

 

Na contemporaneidade, o câncer é a mais importante das doenças. É tão temido que até há não muito tempo as pessoas nem sequer diziam seu nome, mantendo a arcaica crença no poder mágico das palavras, numa impossibilidade de distinguir entre representação e coisa representada. A palavra tinha a força de uma sentença de morte e como tal era censurada. Com os avanços da medicina, o câncer deixou de ser uma entidade monolítica e se fragmentou numa pluralidade de doenças diferentes, com diversos graus de malignidade e capacidade invasiva. Apesar de continuar aterrorizante, nem sempre o câncer é uma sentença de morte.

 

O diagnóstico de câncer provoca mudanças radicais na rotina e nas perspectivas daquele que foi atingido. O impacto emocional é imenso. Toda a libido do sujeito abandona o mundo externo e ele se volta para si mesmo. A vida social e amorosa perde o interesse. A única coisa que merece a atenção é o próprio corpo e seus cuidados. Instala-se a depressão e, para o doente, o outro agora é um espectador do drama que vive, de quem espera receber conforto e apoio enquanto transita pelos estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, tão bem descritos pela psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross.

 

A linguagem em torno da doença privilegia as metáforas bélicas. O câncer é o inimigo a ser combatido em todos os níveis - nas políticas públicas de saúde, nas condutas médicas, no interior do corpo daquele que o contraiu. Nessa guerra declarada que o sujeito trava contra o câncer, atos de bravura não são raros. Qualquer um de nós pode lembrar exemplos em suas relações pessoais nos quais a coragem e a tenacidade mostradas constituem-se exemplos edificantes, além de muito ajudarem a condição de vida naquelas circunstâncias.

 

Por mais que os costumes tenham evoluído, não é possível diminuir a magnitude e a reverberação existencial trazidas pela consciência da morte, a dor pela perda dos entes queridos e o inevitável luto por ela desencadeado. A cultura produziu rituais sociais e religiosos que tentam torná-la menos assustadora. As pompas fúnebres preparam o corpo do morto para sua última aparição social e o encaminham para o destino final, enquanto os ritos religiosos garantem-lhe uma sobrevida espiritual no além.

 

Os debates éticos sobre os procedimentos médicos frente a doentes moribundos ou portadores de quadros irreversíveis têm ajudado a abordar o tema da morte de forma mais isenta e com clareza. Pôde-se então discriminar e nomear diferentes situações - eutanásia, ortotanásia, distanásia, tratamento fútil e obstinação terapêutica, cuidado paliativo, recusa de tratamento médico e limitação consentida de tratamento, retirada de suporte vital (RSV) e não oferta de suporte vital (NSV), ordem de não ressuscitação ou de não reanimação (ONR) e suicídio assistido - avaliando-se melhor suas consequências e implicações.

 

Essa abordagem tem feito com que o tema da doença grave e da morte deixe de ser tratado como tabu e possa ser enfrentado de forma mais humana e realística.

 

Nesse sentido desmitificador, chamam a atenção Topic of Cancer e Tumourtown, dois textos de Christopher Hitchens, o polemista inglês recentemente vitimado pelo câncer. Sem negar a gravidade dramática de sua situação, mas também sem abandonar o humor e a ironia, Hitchens descreve suas experiências ao ser diagnosticado e ao se submeter aos tratamentos para o câncer, descrevendo-as como o ingresso num mundo paralelo até então desconhecido, regido por normas próprias, com uma língua e costumes específicos.

 

Recentemente me foi dito que até mesmo no Facebook pessoas postam em suas páginas informações sobre o câncer que as acomete e o tratamento a que se submetem, recebendo manifestação de afeto e solidariedade por parte dos amigos. Surpreende tal acontecimento na medida em que quebra a imagem preconceituosa que muitos fazem daquela mídia social, entendida como a vitrine maior do que chamei acima de sociedade da felicidade compulsória.

 

De fato, as pessoas se apresentam no Facebook como se vivessem no melhor dos mundos. Elas estão fazendo coisas interessantíssimas, em lugares maravilhosos. Ninguém ali parece ter problemas. Estão esconjurados todos os fantasmas que atazanam a vida da maioria dos pobres mortais - uma vida sem grandes acontecimentos excepcionais, o desafio de estabelecer um relacionamento afetivo estável e prazeroso, o conseguir manter-se financeiramente, o medo de não ter amigos, etc. O que aparece no Facebook é a imagem idealizada de cada um, com os aspectos positivos exacerbados e os negativos escamoteados. Mas por que deveria ser diferente? Não é exatamente isso que acontece nos contatos sociais presenciais? Neles também procuramos mostrar o melhor que temos, poupando o interlocutor de aborrecimentos e coisas desagradáveis, sendo exatamente por esse motivo que temas como doenças e mortes são evitados. A única diferença entre o Facebook e os contatos diretos não virtuais é a amplitude desmesurada das relações ali exibidas, os amigos a mancheias, às dezenas, centenas, até milhares...

 

De qualquer forma, que o câncer possa aparecer no Facebook e suscitar uma solidariedade entre seus participantes mostra como as relações ali expostas podem ter a mesma força afetiva dos contatos reais, sendo mais uma indicação de que esse deixa de ser um assunto proibido, para alívio e satisfação dos doentes. Não mais sofrerão em silencio, temendo compartilhar sua dor com os demais.

 

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de "Fragmentos Clínicos de Psicanálise (casa do Psicólogo), entre outros

 

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