Terapia sem remédios é usada por apenas 20%

Acompanhamento psicológico e com fisioterapeuta pode retardar doença

O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2011 | 03h03

A pesquisa feita com 400 cuidadores - 100 profissionais e 300 familiares - pela TNS Research International revelou um dado preocupante: apenas 2 entre 10 portadores de Alzheimer recebem tratamento não medicamentoso, como fisioterapia, acompanhamento psicológico e terapia ocupacional.

Mas, segundo especialistas, essas terapias complementares e a reabilitação cognitiva são tão importantes quanto os remédios para retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares. A fisioterapia pode, por exemplo, ajudar a preservar a mobilidade do doente.

"Muitos acham que, por se tratar de uma doença sem cura, não há nada que possa ser feito", afirma Fernanda Gouveia. Sem estimulação adequada, continua, o paciente tende a não se arriscar diante dos consecutivos fracassos. Com o tempo, se isola e se torna apático, sendo ainda menos estimulado. "Isso pode contribuir para a aparente progressão da doença. Na verdade, seu funcionamento está sendo pouco aproveitado."

A dentista Eduarda Moraes aprendeu na prática como o ambiente pode ser decisivo no comportamento e no humor do portador de Alzheimer. "Minha mãe fica agressiva quando é contrariada. Se algo a incomoda, logo esquece, mas a sensação ruim fica se repetindo." Do mesmo modo, o bem-estar proporcionado pelas atividades do grupo de estimulação cognitiva que participa persiste ao longo do dia.

"Tento manter a independência dela o máximo possível, restringi apenas o que representava risco. Ela já bloqueou o cartão de débito várias vezes por errar a senha, mas, com ajuda da cuidadora, ainda paga a conta do supermercado", conta.

Na fase inicial da doença, o papel do cuidador deve ser apenas supervisionar as atividades do paciente, explica o neurologista Ivan Okamoto, do setor de Doenças Neurodegenerativas da Unifesp. "Há uma tendência de assumir postura paternalista e fazer tudo pelo doente. Assim o estímulo cerebral é menor", diz.

À medida que a doença progride, porém, o papel do cuidador se torna mais importante.

Gratidão. Embora 76% dos cuidadores entrevistados tenham dito já ter pensado em internar o familiar doente nos momentos mais difíceis, a maioria afirma que não o fez pelo sentimento de gratidão.

"É o fechamento do ciclo", diz o psicólogo Dennys Malouf, que cuida da mãe há oito anos. "Ela me colocou no mundo, educou. Agora posso retribuir toda a educação. Sei que a estou preparando para sua partida."

Em seu trabalho de conscientização da família sobre a doença, Susana Ochi procura mostrar a importância de aproveitar cada momento de lucidez do pai.

"Logo ele não vai mais reconhecer as pessoas. Tento fazer minha mãe perceber como é precioso esse tempo que ela ainda tem. Acho que essa abordagem torna mais leve a missão do cuidador." / K.T.

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