''Teria sido mais fácil não prender Duda''

Desabafo é do delegado que deteve marqueteiro do PT

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Cinco anos depois de comandar a Operação Rudis, que culminou com a prisão em flagrante do publicitário Duda Mendonça em uma rinha de galo no Rio, o delegado da Polícia Federal Antonio Cardoso Rayol persegue outro alvo, a própria aposentadoria, mas não consegue. O motivo são processos administrativos disciplinares abertos contra ele porque, segundo diz, "atreveu-se a prender o marqueteiro que é amigo do presidente da República".

"Eu acho que me aborreci mais do que ele (Duda)", declara Rayol, 32 anos de carreira. "Teria sido mais fácil para mim não prendê-lo. Depois de tantos anos é como se eu tivesse sido condenado." Para ele, os delegados que assumem investigações "contra influentes não têm segurança jurídica porque dependem de advogados amigos ou da assessoria do sindicato de classe".

Marqueteiro do presidente Lula e do PT, Duda foi detido no sítio Privê, Recreio dos Bandeirantes, palco da briga de galo, em outubro de 2004 - nove dias antes do segundo turno das eleições municipais daquele ano. Ele fazia a campanha à reeleição de Marta Suplicy (PT) à Prefeitura de São Paulo. Um comando da PF, dirigido por Rayol, invadiu a arena com 200 apostadores. Capturado, Duda disse: "O Brasil sabe que o meu hobby é esse."

"A operação provocou uma pressão política odiosa", protesta Rayol. "Foram instaurados processos administrativos disciplinares para apurar irregularidades. Mas não houve abuso. Fizemos um trabalho rotineiro, com o Ministério Público."

Na época, a PF era dirigida pelo delegado Paulo Lacerda. Rayol era titular da Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente da PF do Rio. Ele enquadrou Duda por crime ambiental, apologia ao crime e quadrilha. "O juiz recebeu a denúncia da promotoria, mas ele (Duda) recorreu. Até hoje ele conseguiu nem ser julgado em primeiro grau com sucessivos recursos. Foi preso em flagrante, provas incontestáveis. Melhor coisa para ele é não ser julgado. Provavelmente, jamais será punido. Vai cair na prescrição."

Hoje afastado de qualquer função, Rayol quer ir para casa. Mas contra ele pesam dois processos disciplinares - atribuem-lhe motivações políticas e falhas na investigação. "É um entrave burocrático. Alegaram que não identifiquei os donos dos galos. Arrumaram pretexto para me afastar porque eu não enquadrei os donos. Ser dono de galo não é crime. Crime é botar o galo para brigar."

A PF informa que a existência de processos de âmbito disciplinar inibe, de fato, expedientes de aposentadoria. A regra vale para todo servidor. Mas Rayol protesta. "O negócio é o seguinte: o cara é amigo do presidente. Quero me aposentar, direito meu. Tenho tempo de serviço."

"Não pode o delegado federal sofrer as consequências sob o frontal desamparo do Estado", depõe o delegado da PF Armando Rodrigues Coelho Neto. "Vários servidores foram ou têm sido vítimas de situações conceitualmente caracterizadoras de assédio moral. O caso do Rayol é exemplo disso."

O advogado Hélio Santana, que defende o publicitário, disse que não houve ação penal contra Duda porque era uma situação atípica. "O delegado queria pirotecnia. O fato de Duda estar assistindo com mais 200 pessoas não é crime. Ele não tinha apostado nem tinha galo. Se o delegado está frustrado porque Duda não foi apenado é porque o trabalho dele não foi bem feito."

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