Terreno em Guaratiba não usado na JMJ vai virar conjunto habitacional

Anúncio foi feito pelo arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, na missa de envio, em Copacabana, e confirmado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes

Roberta Pennafort e Vinicius Neder, Agência Estado

28 de julho de 2013 | 17h25

Dispensado pelos organizadores da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) por ter virado um lamaçal, o terreno em Guaratiba, na zona oeste do Rio, onde o evento seria encerrado pelo papa na noite deste sábado, 27, será transformado em um conjunto habitacional do programa "Minha Casa, Minha Vida", chamado "Campo da Fé do Papa Francisco". O anúncio foi feito pelo arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, na missa de envio, em Copacabana, e confirmado pelo prefeito Eduardo Paes.

"O fato é que a Igreja investiu muitos recursos ali e isso não poderia ser desperdiçado. Só os donos da área se beneficiariam. A Prefeitura vai desapropriar a área pela via judicial e vamos fazer com o Instituto dos Arquitetos do Brasil um concurso para ali fazer um bairro popular para os mais pobres", disse o prefeito. Paes explicou que a desapropriação pela via judicial é uma forma de garantir a correta avaliação do terreno, incluindo nos cálculos o investimento do comitê organizador da JMJ na preparação da área — mas sem contabilizá-lo como ativo do terreno e, sim, como "doação" da Igreja.

O prefeito não estimou o valor a ser investido no novo bairro. "Se tivesse acontecido o evento lá, o investimento da Igreja tinha se justificado. Mas como ele não aconteceu, eu vi o d. Orani muito angustiado", ele disse.

Paes reconheceu a falta de boas condições de moradia em Guaratiba — um dos bairros de Índice de Desenvolvimento Humano mais baixos do Rio, 118º lugar em 126 regiões pesquisadas —, citou a construção do BRT TRansoeste (corredor de ônibus que liga a zona oeste a bairros da zona norte) como exemplo de investimentos e afirmou que a Prefeitura investirá em infraestrutura para o novo bairro, como saneamento, escolas e clínicas da família.

Anunciado como a "terra prometida" da JMJ em novembro de 2012, o terreno de Guaratiba, de 1,7 milhão de metros quadrados, foi preparado durante cinco meses. Não pôde ser usado para a missa campal e a vigília após dias de chuva incessante no Rio. As atividades foram então transferidas para Copacabana.

O uso do terreno está sendo investigado pelo Ministério Público, por se tratar de uma Área de Proteção Permanente. Suspeita-se de loteamento irregular, aterro clandestino e presença de milícia na região. Parte do terreno teria entre os donos o empresário Jacob Barata Filho, um dos principais donos de empresas de ônibus do Rio. Ontem, Paes negou que houvesse irregularidades no licenciamento ambiental do terreno.

Gastos. A Prefeitura fez a dragagem dos rios e obras no entorno, e os organizadores da JMJ arcaram com os custos de terraplanagem e construção de estruturas. Os dois gastos são mantidos em sigilo (apenas são revelados os custos totais: R$ 26 milhões públicos e R$ 300 milhões da JMJ). A área é de manguezal, e, por ficar abaixo do nível do mar e próxima a um rio assoreado, sempre houve a possibilidade de grande acúmulo de água.

Na missa deste sábado, d. Orani disse que, apesar da transferência de Guaratiba para Copacabana, a JMJ chamou a atenção para as dificuldades da periferia da zona oeste e que sugeriu ao prefeito que a área virasse um bairro popular.

Paes aproveitou também para melhorar sua nota para a organização geral da JMJ. Se no início da semana o prefeito havia dito que "era mais perto de zero do que de dez", no domingo ele considerou que "está mais próxima de dez". "Perdemos as primeiras batalhas, mas ganhamos a guerra", afirmou. Segundo ele, "a partir de quinta-feira", tudo correu bem. O prefeito também minimizou problemas de desorganização no Metrô e de escoamento do público de Copacabana.

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