Terroir do galo preto

A maldição sobre o nome Chianti é aquela cena clássica de filme: o casal romântico numa cantina de estereótipo, toalha xadrez, sugando um espaguete ao sugo e bebendo um vinho rosa tirado de uma garrafa bojuda coberta de palha. Uma garrafa igual, mas vazia, enfeita a mesa com uma vela acesa fincada. A cena destruiu o nome da região, que virou sinônimo de vinhos baratos e medíocres, vendidos aos litros. Não merecia tal destino, embora o fiasco (a embalagem de vidro e palha) exista e vinhos ruins abundem por lá também.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2010 | 02h27

A região vinícola de Chianti é uma das mais antigas do mundo, citada em documentos do século 13, e tem dois momentos fundadores: o de meio milênio, que dura até o final do século 19, e o posterior ao barão Bettino de Ricasoli.

Poucos vinhos têm um inventor. Eles nascem do acaso, das uvas de uma determinada região. Sua autoria é coletiva. O barão queria estabelecer um padrão de qualidade que separasse seus vinhos dos demais. Daí surgiu a denominação, uma "fórmula" estabelecida por ele, em 1872, definindo o blend como sendo de Sangiovese e um pouco de Cannaiolo. Em 1924 foi fundado o Consorzio, reunindo os produtores da região, e em 1984 ela consegue ter seu terroir exclusivo reconhecido, com a criação da DOCG Chianti Classico. O estilo e a mistura sobreviveram desde Ricasoli, com outra alteração decisiva quando foi finalmente permitida a produção de vinhos 100% Sangiovese, caso do Castello di Ama, que se notabilizou na nossa degustação.

O bom Chianti é um vinho muito amigável para a mesa, com notável acidez e fineza. É o chamado "vinho gastronômico", que pede acompanhamento de comida. O esforço do Consorzio, cujo símbolo é um galo negro, que aparece em todas as garrafas dos associados, o Gallo Nero, é separar o bom produto da imagem terrível do resto. Não é nada fácil, e o galo precisa ser de briga para dar conta.

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