Tese sem base científica provoca confusão

Hipótese contrária ao consenso médico divulgada pela mídia canadense mostra como as redes sociais podem pressionar médicos e gestores públicos

Alexandre Gonçalves e Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2011 | 00h00

A esclerose múltipla não seria um problema do sistema imunológico, mas uma doença causada por anormalidades nas veias que irrigam o cérebro e a medula espinhal. A hipótese, sugerida em 2008 pelo cirurgião italiano Paolo Zamboni, contraria o consenso médico e não fez muito sucesso mundo afora. Com poucas e barulhentas exceções.

No Canadá, a mídia relatou resultados quase milagrosos da cirurgia inspirada na teoria de Zamboni em que o médico alarga mecanicamente as veias para corrigir a suposta insuficiência venosa que causaria a doença. A técnica recebeu o sugestivo nome de "procedimento de liberação". As mídias sociais ecoaram elogios à terapia alternativa.

Em dois anos, surgiram mais de 500 páginas, eventos e grupos no Facebook para promover o tratamento vascular de Zamboni, mobilizando dezenas de milhares de canadenses. A onda virtual paralisou médicos, gestores públicos e até líderes de associações de pacientes.

Doentes e suas famílias exigiam que o governo permitisse a realização do procedimento no país. Chegaram a solicitar sua inclusão no rol dos serviços cobertos pelo sistema público.

Médicos e gestores, apoiados por líderes de algumas associações de pacientes, argumentaram que a demanda não estava baseada em evidências científicas. Apontavam que toda a celeuma havia nascido de um trabalho menor, que analisou 65 doentes submetidos ao tratamento alternativo, sem qualquer comparação com um grupo controle.

A resposta foi violenta. Os opositores do "procedimento de liberação" foram acusados de conluio com a indústria farmacêutica, que lucraria com a proibição do tratamento cirúrgico. Os pacientes exigiram a realização de testes clínicos - financiados com dinheiro público - para comprovar a eficácia da terapia. A discussão se arrasta até hoje.

Há um mês, o imbróglio mereceu um artigo na Nature. Os autores, liderados por Roger Chafe, diretor de pesquisa pediátrica da Memorial University of Newfoundland, sublinharam a necessidade de dedicar esforços para "melhorar o conhecimento científico do povo, dos políticos e da mídia". Eles recordam que é preciso "criar empatia com um público que não é mais deferente aos especialistas".

Também argumentam que os cientistas devem ingressar nas novas redes sociais, "ferramentas mais efetivas de comunicação" que os tradicionais relatórios e notas para a imprensa.

No Brasil, já há iniciativas nesse sentido. O Hospital Israelita Albert Einstein, por exemplo, criou o cargo de "especialista em mídias digitais" com o objetivo de se consolidar como uma fonte segura de informação sobre saúde na internet. "Temos uma interação online com os pacientes pelo Twitter, Facebook e blog. Não chega a ser uma consulta virtual, mas damos as primeiras diretrizes, indicamos profissionais e eu dou o suporte do ponto de vista médico", diz a intensivista Mariana de Oliveira.

Risco. O diretor do Centro Cochrane do Brasil, Álvaro Nagib Atallah, afirma que médicos e pacientes são "amadores" no negócio de influenciar as mídias sociais e a opinião pública. "As empresas farmacêuticas têm um controle muito maior sobre esse processo", aponta. "Elas tentam pautar a mídia e gerar comoção. Dessa forma, decisões sobre políticas de saúde tornam-se mais emocionais do que racionais."

Para responder se uma terapia é realmente eficaz, a Cochrane compara centenas de estudos científicos. Depois, publica um artigo com a soma dos resultados. Fornece, assim, subsídios para decisões baseadas em evidências científicas robustas e não na última moda da rede. "Se não tomamos cuidado, deixamos de investir em coisas que funcionam para apostar em novidades mais caras e de eficácia duvidosa", diz Atallah.

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