Texto final

Devo confessar que morro de vontade de ler o epitáfio do Fritz Spiegl. Não que seja esse o meu gênero literário predileto. Mas talvez tenha sido o dele. Que eu saiba, ninguém publica dois livros sobre um assunto sem ter com ele alguma ligação particular. Será que o Fritz, hoje instalado sete palmos abaixo de onde caminhamos, foi também em vida um sujeito pra baixo?

Humberto Werneck,

13 Maio 2012 | 06h29

Pelo pouco que sei dele, não me parece. Até que sua vida se extinguisse, ele a levou na flauta, num sentido ao menos, pois foi por longo tempo o primeiro flautista da Royal Liverpool Philharmonic Orchestra.

Entre um concerto e outro, o Fritz tinha o hábito de vagar por velhos cemitérios da Grã-Bretanha e, antes de recolher-se definitivamente a um deles, anotou centenas de epitáfios, depois selecionados para os livros a que me referi. Devia achar, como este cronista, que ir a cemitérios pode ser programa interessante, desde que não seja, claro, para lá ficar.

Essa mania do Fritz já foi assunto meu aqui, mas compreendo que você não se lembre; também ando um pouco esquecido, tanto que nem sempre me ocorre reler este hai-kai do Millôr Fernandes, afixado na minha mesa de trabalho: "Meio esquecido / escreve memórias / de olvido".

Onde estava eu? Ah, no Fritz Spiegl e sua coleção de epitáfios. Há de tudo nela. Estes aqui, por exemplo, têm o peso das condenações eternas:

"Aqui jaz um sujeito lascivo que, ao exalar seu último suspiro, estava, no meio da vida, caçando a morte - que não demorou a encontrar, ao ser flagrado na cama com a mulher de outro homem."

"Aqui jaz o corpo de Marta Dias, sempre ruidosa e não muito piedosa, que viveu até os 40 anos e deu aos vermes o que recusou aos homens."

Nem sempre, porém, a virtude compensa:

"Aqui jaz Mary Haselton, virginal solteira nascida de pais católicos e virtuosamente educada, que no ato de rezar as Vésperas foi morta instantaneamente por um raio de luz, na idade de 9 anos."

Não faltam manifestações de inconformismo, e até acusações:

"Sob essa lápide jazem os restos mortais de Stephen Jones, que teve uma perna amputada sem o consentimento de sua mulher e de seus amigos em 23 de outubro de 1842, dia em que morreu aos 31 anos de idade."

"Em memória de Mary Maria, e também de seus filhos Louisa e Alfred - todos eles vítimas do descaso das normas sanitárias e especialmente citados numa recente palestra sobre saúde realizada nesta cidade."

Há inscrições que são como pás de cal verbal:

"Aqui jaz Martin Elphistone, que com sua espada cindiu a filha que Sir Harry Crispe lhe deu em casamento. Ela era gorda e de mau gosto, mas os homens às vezes comem bacon com o seu feijão, e amam a gordura como a carne magra."

Outras, como esta, evocam feitos e ofícios:

"Aqui jaz James Earl, o pugilista que em 11 de abril de 1788 jogou a toalha branca."

Por que não um anúncio?

"Consagrado à memória de Nathaniel Godbold, inventor e proprietário do excelente Bálsamo Vegetal, para a cura da tuberculose e da asma."

E há, por fim, todo um colar de pérolas do nonsense:

"Aqui jaz John Tyrwitt. Ele morreu de ataque enquanto bebia vinho do Porto."

"Em memória de Emma & Maria Littleboy, as duas gêmeas de George e Emma Littleboy. Duas Littleboys jazem aqui, e, por estranho que pareça, estes little boys são meninas."

"Martha Blewit foi esposa de nove maridos, sucessivamente, mas o nono lhe sobreviveu. O texto no seu funeral foi ‘Por fim, a mulher também morre’."

E quanto ao próprio Fritz Spiegl, como será seu epitáfio? Tudo o que sei é que esse bon vivant talvez tenha sido também, me perdoe, um bon mourrant, pois se foi sem agonia nem prévio aviso, em plena fuzarca de um almoço de domingo. Tinha 77 anos - e eis que agora me lembro de um papo entre o Rubem Braga e o Fernando Sabino quando se foi Jacques Prévert, o autor de As folhas mortas. Morreu de quê?, inquietou-se o Sabino. "Aos 77, sempre se morre de alguma coisa", tranquilizou o Braga - que teria exatamente essa idade no dia em que um câncer o levou, treze (!) anos depois.

Pensando bem, taí um texto lapidar, e não só para o Braga e o Fritz: "Sempre se morre de alguma coisa".

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