Robert Doisneau
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Textos inéditos de Simone de Beauvoir mostram a autora duplamente apaixonada

O livro 'Brigitte Bardot e a Síndrome de Lolita & Outros Escritos' reúne três textos escritos por encomenda para a imprensa americana entre os anos 1940 e 60

André Nigri  , Especial para o Estado

29 Setembro 2018 | 06h00

Entre os slogans de Paris durante o maio de 68, o preferido de Simone de Beauvoir dizia “Viver sem interrupção”.

Aos 60 anos, no mês que virou o mundo de pernas para o ar, ela vivia o ápice de sua trajetória como figura de proa do feminismo, cujo marco inicial fora a publicação de O Segundo Sexo, em 1949.

Na década de 1970, parte radical do movimento perdeu a paciência com Beauvoir, sobretudo pelo que denominava sua indulgência com “aquele execrável chauvinista Jean-Paul Sartre”, nas palavras da biógrafa Hazel Howley.

Depois de morrer, em 1986, sua importância foi reabilitada, não apenas como filósofa, ensaísta, mas também como romancista e memorialista. 

Viver sem interrupção e intensamente não foi mera figura de retórica para a autora de A Convidada. Além de colecionar inúmeros amantes, Beauvoir atuava em várias frentes. A menos conhecida delas chega agora ao público brasileiro com o livro Brigitte Bardot e a Síndrome de Lolita & Outros Escritos (Quixote+Do Editoras Associadas).

Os três textos reunidos foram escritos por encomenda para a imprensa americana entre os anos 1940 e 60.

O primeiro deles, Uma Existencialista Observa os Americanos, ocupou duas páginas da edição de 25 de maio de 1947 do The New York Times e traz a seguinte legenda sobre a autora: “Simone de Beauvoir é filósofa, romancista, dramaturga e a existencialista número 2 da França (o primeiro, claro, é Jean-Paul Sartre). Ela recentemente completou uma viagem costa a costa neste país”. 

Entre janeiro e maio daquele ano, ela viajou pela primeira vez à América. Uma viagem cuja agenda incluía conferências e entrevistas, e na qual conheceu um dos homens por quem mais foi apaixonada, o escritor Nelson Algren. Foi paixão à primeira vista, principalmente dela, que não via a hora de ele convidá-la para seu apartamento, uma pocilga na zona norte de Chicago.

Eles começaram um caso amoroso que durou quase duas décadas com visitas constantes – dele à França e dela aos Estados Unidos – e uma intensa correspondência, mais tarde reunida no volume Um Amor Transatlântico – 1947-1964

Para custear essas viagens, ela aceitou escrever por encomenda. O primeiro texto para o NYT mostra uma intelectual entre deslumbrada e cética com relação à nação que emergira da Segunda Guerra Mundial. “Ora, a América não é de modo algum como um deserto; quando se vem da Europa para cá, aqui se mostra mais como um paraíso”, escreve, mas não se mostra tão segura quanto ao futuro do país e deseja aos jovens que o transformem numa civilização “comparável a Atenas e Roma”, e não em um “fato dentre outros fatos, num mundo que não terá ajudado a justificar”.

De maio a setembro do ano seguinte (1948), ela voltou para uma viagem de quatro meses ao lado de Algren, a quem em uma carta escreveu que obedeceria “a seus planos de uma forma muito submissa (às noites) enquanto planejarei os dias, e você me seguirá do mesmo modo”. A publicação dessa correspondência deixou muita gente estarrecida. Mas Simone estava vivendo como bem entendia: livre. 

Talvez ela pensasse como Brigitte Bardot, cuja personagem Juliette, do filme E Deus Criou a Mulher (1957), em uma das primeiras cenas diz “Tudo que o futuro faz é estragar o presente”. O artigo que dá título à edição brasileira foi publicado em agosto na revista americana Esquire: The Magazine for Men.

O nome do original em inglês, Brigitte Bardot and the Lolyta Syndrome, pode ter sido dado pelos editores, como adverte Sylvie le Bom de Beauvoir, filha adotiva da escritora e detentora dos direitos de sua obra, mas não há sinais de que a autora tenha se oposto a ele – uma óbvia referência ao romance de Vladimir Nabokov, publicado dois anos antes.

Tudo no texto de Beauvoir transpira liberdade e encantamento pelo filme que levou Bardot ao estrelato internacional. A estonteante loirinha francesa de 23 anos parecia à autora “o mais perfeito espécime dessas ninfas ambíguas. Vista de costas, seu corpo de dançarina, esbelto e musculoso, é quase andrógino”. O curioso é a recepção assinalada pela escritora de B.B. pelos públicos francês e americano.

Enquanto o primeiro a punia moralmente, o segundo a evocava como um novo ícone feminino, pelo modo como se comportava livremente com seu desejo, sem artifícios e cheia de ingenuidade infantil. 

O terceiro texto chama-se O Que o Amor É – E o Que Não É e apareceu na edição de agosto de 1965 da McCall’s, revista mensal feminina. É o mais curto dos três e traz mais perguntas que respostas. Beauvoir arrisca dizer que nos apaixonamos “por um gosto do perigo”. 

*André Nigri é jornalista e autor do romance Pralisia (Ed; Reformatório, 2018)

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