Típica família indígena tem mãe obesa e filho anêmico, revela levantamento

Sociedade. Perfil está no Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, o diagnóstico mais abrangente feito sobre saúde, cotidiano e condições de vida e de consumo dos índios no País; estudo mostra que 8 em cada 10 bebês indígenas têm anemia

Denise Madueño e Ligia Formenti, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2010 | 00h00

A nova família indígena é composta por uma mãe com excesso de peso, mas anêmica, com filhos também anêmicos, sem carteira de vacinação em dia, vítima frequente de diarreia e problemas respiratórios. O retrato está revelado no 1.º Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, o diagnóstico mais abrangente feito sobre saúde, cotidiano e condições de vida e de consumo dos índios no País, ao qual o "Estado" teve acesso.

Na Região Norte, uma em cada cinco crianças não possui sequer certidão de nascimento. "A criança que não é registrada é invisível aos olhos do Estado. Por isso, o registro civil deve ser considerado o primeiro passo em busca da cidadania e dos direitos da criança", avalia o estudo.

Pesquisadores encontraram um cenário que mescla a ausência do Estado, representado pela precariedade de saneamento, escassez de recursos básicos, altos índices de doenças controláveis e dependência da população dos programas de benefícios sociais.

Os indicadores de saúde são um reflexo claro desse novo panorama. Autores do trabalho identificaram um processo de transição estampado nas taxas de cesárea e hipertensão, que convive com a já conhecida anemia. Essa deficiência atinge níveis alarmantes, acima do que é descrito em pesquisas sobre população brasileira em geral.

Oito entre dez crianças indígenas de 6 a 11 meses de idade sofrem de anemia. Um quadro de prevalência 16 vezes acima do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera normal. A anemia é constatada em 51% das crianças índias quando a idade avaliada estende para os menores de 5 anos.

Na Região Norte, 66% das crianças indígenas menores de 5 anos têm anemia. Na Região Centro-Oeste, o índice é de 51,5%, na Região Sul/Sudeste, 48,5% e na Nordeste, 40,9%. A anemia na infância é apontada normalmente como decorrente de uma dieta pobre em ferro e provoca baixo desenvolvimento da criança.

Apesar desse cenário, o Programa Nacional de Suplementação de Ferro do Ministério da Saúde, destinado às crianças de 6 a 18 meses, não tem atingido a população indígena, segundo dados coletados. O levantamento constatou que apenas uma em cada cinco crianças menores de 5 anos recebeu pelo menos uma dose de sulfato ferroso.

O problema também atinge mulheres. Do grupo analisado, 32,7% estavam anêmicas. Entre as gestantes, a taxa foi de 35,2%. A situação é mais preocupante no Norte. Entre as não gestantes, 46,9% tinham a doença - 2,1 vezes mais do que no grupo correspondente no Nordeste. No grupo de grávidas, 44,8%. Na população em geral, a taxa é de 29,4%, segundo estudo apresentado em 2009 pelo Ministério da Saúde.

Os números coletados pelos pesquisadores revelam grandes diferenças regionais. Mulheres da Região Norte têm mais filhos e apresentam um nível de escolaridade menor. Mas, em contrapartida, hipertensão e obesidade na região são menos frequentes.

No Norte, 24,9% das mulheres estão acima do peso e 6,1% são obesas. No Sul/Sudeste, 32,2% têm sobrepeso e 22,4% são obesas. No País, os números revelam sobrepeso em 30,2% das índias e obesidade em 15,7%.

Vacinação. O estudo também dá destaque para falhas na aplicação de vacinas. Os dados coletados mostram que a maioria das crianças (92,9%) recebeu pelo menos uma dose da vacina BCG, contra tuberculose. No entanto, quando foi avaliado o porcentual de crianças vacinadas na idade indicada pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), no primeiro dia de vida, menos da metade das crianças que nasceram em hospitais foi imunizada.

Os resultados do levantamento mostram que aproximadamente uma em cada quatro crianças teve diarreia na semana anterior à entrevista. A diarreia, junto com infecções respiratórias, é uma das principais causas de internação de 19% de crianças indígenas no último ano.

O estudo destaca ainda o baixo índice do uso do soro oral (56,4%), um forte aliado no combate à mortalidade infantil e de custo extremamente baixo.

PARA ENTENDER

Estudo é o mais completo sobre índios

O 1.º Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas é a maior e mais completa pesquisa sobre índios feita no País. Coordenada por Carlos Coimbra Júnior, da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, a equipe de 50 pesquisadores (médicos, enfermeiros e agentes de saúde) percorreu 113 aldeias em 2008 e 2009.

Foram entrevistadas 6.707 mulheres de 14 a 49 anos e os responsáveis por 6.285 crianças de 6 meses a 5 anos incompletos. A equipe coletou dados biométricos, de pressão arterial e dosagem de hemoglobina e glicose.

O estudo foi encomendado pela Funasa e executado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.