Todos perdem; todos celebram a vitória

ANÁLISE

ROBERTO LAMEIRINHAS, JORNALISTA, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Foi a solução possível. O acordo assinado ontem em Honduras permite tanto ao líder do governo de facto, Roberto Micheletti, quanto ao presidente deposto Manuel Zelaya declararem-se vencedores enquanto batem em retirada. Sob a provável ameaça dos EUA de tornar um inferno a vida de empresários e gestores da economia do país - o segundo mais pobre do hemisfério -, Micheletti teve de engolir o possível retorno de seu rival ao poder. No entanto, o mesmo acordo limita as atribuições de Zelaya, caso a volta seja confirmada pelo Legislativo, e frustra sua intenção de convocar uma Assembleia Constituinte.

A mudança da Carta era questão de honra para Zelaya e foi o pivô do golpe de 28 de junho, quando Zelaya foi retirado do país sob a mira de fuzis e posto, de pijamas, num avião para a Costa Rica. Seus adversários consideraram que ele pretendia eliminar o artigo que proíbe que ocupantes de cargos executivos sejam eleitos mais de uma vez. A própria Carta pune com a perda de mandato quem tentar modificar esta norma.

Mas, se Zelaya teve de fazer concessões tão caras como a de abrir mão da mudança constitucional, Micheletti também cedeu. Para o presidente de facto e seu grupo de aliados, Zelaya representa em Honduras o radicalismo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e sua volta ao poder era considerada inaceitável.

Nem mesmo quando o comandante do Exército hondurenho, general Romeo Vázquez, indicou que não faria objeções ao retorno do líder deposto - desde que no marco de um acordo político -, Micheletti mostrou-se disposto a aceitar a volta de Zelaya. Quase sempre, os representantes do regime de facto nas negociações promovidas pela Organização dos Estados Americanos limitavam-se a ganhar tempo, apresentando propostas que a parte zelaysta sabidamente não aceitaria.

A avaliação do governo de Micheletti era a de que a realização das eleições do dia 29 encerrariam a crise hondurenha quase automaticamente, uma vez que o presidente eleito tomaria posse em janeiro, quando se encerraria o mandato de Zelaya. Coube aos EUA - origem das remessas de dólares de emigrantes hondurenhos e de boa parte da ajuda financeira externa a Tegucigalpa -, dobrar a resistência do governo de facto e forçá-lo a aceitar o acordo. Enviado especial do Departamento de Estado, Thomas Shannon aparentemente não falhou em usar argumentos convincentes.

No final, apesar de Zelaya não ter como mudar a Constituição e Micheletti não ter como evitar a volta de Zelaya, ambos devem apresentar-se como vencedores da disputa. Até agora, sob isolamento econômico e frequentes toques de recolher, têm perdido os cidadãos hondurenhos.

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