Todos reclamam dos EUA, agora sem razão

Os americanos não estão satisfeitos com Barack Obama, mas deveriam estar. E muito.

Alberto Tamer*, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Ele e sua equipe, em apenas dez meses, estão fazendo um belo trabalho para salvar o sistema financeiro e tirar a economia mundial da recessão.

Ao assumir, em janeiro, os Estados Unidos e a Europa estavam mergulhados em uma das mais graves recessão da história; era a primeira verdadeiramente globalizada, mundial. Ninguém escapou. Poucos acreditavam nele, nos Estado Unidos e no mundo. Era um senador desconhecido fora do país sem nenhuma experiência séria de governo. Ganhou, talvez, porque os outros eram piores.

O governo Bush, em fim de mandato, não havia feito nada simplesmente porque, perplexo, não sabia o que fazer. Atirava aqui e ali, sem acertar, o que aumentava a desconfiança, e agravava ainda mais o que pretendia corrigir. Sentia os efeitos, mas custou a identificar as causas num cenário em que não se via nada.

Ninguém sabia o que iria acontecer no dia seguinte. Foram aqueles fins de semana terríveis, aquelas noites de incerteza de domingo, que se sucediam com intervenções de inoportunas, inócuas ou tardias, que não resolviam nada.

Era a ameaça de um novo Lehman Brothers a cada fim de semana em que as madrugadas viravam dias.

Foi assim que Obama recebeu o governo, numa Casa Branca em que a equipe econômica saía pelas portas laterais para fugir da imprensa. Nada a comentar.

Tudo isso começou a ser superado pelo teste de estresse feito nos grandes bancos, sinalizando riscos e apontando medidas preventivas que foram logo implementadas. Não houve hesitações ou demora. Custou caro, mas valeu a pena.

COMO ERA E COMO É

Nos três primeiros meses de seu mandato, a partir de janeiro, neste ano, o PIB dos Estados Unidos estava derretendo. Caiu 6.4%! E isso depois de ter afundado 5,4% no ultimo trimestre do ano passado - outubro a dezembro de 2008. Foi o último também do governo Bush.

Nada havia se alterado no mundo onde a economia definhava, e tudo indicava que nada iria mudar em curto prazo. Mas mudou. Já no segundo trimestre deste ano o PIB reagia, recuava apenas 0,7% e no terceiro parou de cair. Entre julho e agosto, o PIB voltou a crescer - 2,8%, depois de um ano de queda sucessiva.

TODOS QUEREM MAIS

Mas há ainda descontentamento que não se restringe apenas aos Estados Unidos. Todos, a começar pela China, querem mais, querem que os EUA "ponham a casa em ordem" e voltem a crescer como no passado para absorver o excesso de produção mundial. Não há uma reunião dos "gês"da vida em que não se reclame.

Ah, mas no governo Bush o desemprego era menos de apenas 8,5% da força de trabalho e agora passa de 10%, dizem os americanos, entre os quais aumenta a desaprovação de Obama. No Congresso, pedem a cabeça do secretário do Tesouro e reclamam quando Bernanke diz que a economia está saindo da recessão mas vai crescer lentamente. Não há milagres. Afinal, no próximo ano haverá eleição na Camara e no Senado e ninguém quer perder o seu lugar.

Pedem mais crescimento mas condenam o que chamam de "intervenção do governo".

Reclamam por atrasos - e não são os únicos -, mesmo sabendo que os incentivos do governo sempre levam mais tempo para se refletirem no mercado de trabalho, principalmente porque Bush não deixou projetos prontos para serem executados rapidamente. Mais da metade do pacote fiscal ainda não foi aplicada por causa disso.

Tem mais. A equipe econômica de Obama encontrou o consumidor americano superendividado, com medo de perder o emprego por causa da recessão, e a demanda mundial continua em declínio. O desemprego é de quase 10% nos 30 países que formam a OCDE.

Mesmo com o incentivo do dólar subvalorizado, as exportações reagem num mercado mundial em retração pelo segundo ano consecutivo. Há mais produção e menos consumo. E isso não deve se alterar nos próximos meses, prevê a OMC. E grande parte do que resta está sendo abocanhada pela China...

E O DÉFICIT?

Outro argumento, ao qual se rendem até economistas respeitados, é de que o déficit fiscal vai às nuvens. US$ 1,5 trilhões, três vezes maior que em 2008. Um absurdo! Insustentável!

Mas o que eles querem, os americanos, os chineses, os europeus? Que o Bush não socorresse o sistema financeiro, como o presidente do Banco Central Europeu afirma que vai fazer? Que Obama não continue ajudando os mutuários, onde a crise apareceu? Que não aumente a ajuda aos desempregados?

É muito fácil prever onde estaria a economia americana e mundial se a equipe de Obama nada tivesse feito com medo de aumentar os gastos fiscais, sem uma ameaça, sim, mas não imediata.

ELES E NÓS

Toda comparação que se queira fazer é incorreta e injusta. Não vamos voltar a lembrar que nossa crise foi menor porque nos preparamos para ela; que nos antecipamos aos acontecimentos que derrubaram o mercado financeiro mundial. Não. Isso já foi exaustivamente tratado na coluna. Vamos às origens. E a origem é que, além de termos um sistema financeiro sólido e bem administrado, não enfrentamos o brutal desafio de mudança de governo em pleno auge do furacão.

Bush saiu quando o PIB despencava 6,4%. Obama, um senador novato em administração pública, assumiu quando tudo desabava. Aqui, o presidente já estava no governo há quatro anos, estava prosseguindo o bom trabalho feito, embora pouco ambicioso, pelo seu antecessor. Acima de tudo, já havia superado a desconfiança internacional em um país que estava no FMI e seria presidido por um líder sindical supostamente de "esquerda". O governo atual não mudou em absolutamente nada na política econômica do anterior. Pode-se dizer que Palocci foi irmão gêmeo de Malan...

Aqui, uma das causa pouco comentadas do nosso êxito em enfrentar a recessão. O terreno estava preparado e não tivemos mudança no governo. Houve também menos "academicismo" do que nos EUA e na Europa. Ninguém saiu perguntando - como, acreditem!, ainda se pergunta na Europa - se deveríamos investir no consumo ou no sistema financeiro, como se não houvesse alternativa. Por que não nos dois? Por que não aumentar o poder de compra e ao mesmo tempo reanimar o crédito, que hoje já representa 45% do PIB?

Mas o custo fiscal deles era muitíssimo maior que o nosso, não poderiam ter feito o que fizemos! Poderiam, sim, tanto que estão fazendo agora. Obama não quer um novo pacote de mais US$ 700 bilhões, mas afirma que não retira agora os incentivos à demanda interna e ao emprego. O déficit em 2010 ainda será alto, US$ 1,3 trilhão, mas, com o aumento do consumo, a economia e a receita voltarão a crescer. O governo estima que em 2011 o déficit cairá para US$ 900 milhões. E até poderá ser menor se a economia mundial se recuperar destes anos terríveis de incerteza e insensatez.

*E mail: at@attglobal.net

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