Tomie e os filhos. Arte com grife Ohtake

A família de origem japonesa que deixou sua marca na pintura, na arquitetura e no design brasileiros

Márcia Placa, Especial para o JT,

29 de setembro de 2007 | 20h09

A família, como o sobrenome anuncia, tem origem japonesa. Mas foi aqui, no Brasil, que os Ohtakes se tornaram profissionais de sucesso. A mãe, Tomie, está com 94 anos e é uma das principais representantes do abstracionismo informal, com obra que abrange pinturas, gravuras e esculturas. Ruy, o filho mais velho, figura entre os melhores da arquitetura moderna brasileira, com trabalhos do porte do Hotel Unique, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Ricardo também se formou em arquitetura, mas investiu no design e dirige o Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, outra obra de Ruy na Capital.   Nascida em Kyoto, na família Nakakubo, Tomie cresceu nadando no Rio Arashiyma, enquanto o pai trabalhava em um entreposto comercial. Na escola, dedicava especial atenção às aulas de arte - indício de uma vocação não incentivada pela família. Essa relação precoce com tons e matizes fez a jovem de 23 anos usar uma cor para sintetizar o que viu ao chegar ao Porto de Santos, em 1936, na companhia do irmão. Para ela, a cidade era amarela. "Não um amarelo como temos no Japão, mas um amarelo muito forte, quase agressivo", diz Tomie, no livro do jornalista Miguel de Almeida. Deste dia, tem outra lembrança: o gosto do bife a cavalo, que provou pela primeira vez.   O que era para ser apenas uma visita, se prolongou com o início da Guerra no Pacífico. Os irmãos só conseguiram um lugar num navio que estava voltando ao Japão. Ele foi. Ela ficou. Casou-se com Ushio Ohtake, teve filhos e adotou o país como seu. "Minha mãe sempre achou que devíamos ter uma formação daqui, já que o futuro seria nesta terra", lembra Ricardo. "Ela quis que fizéssemos escola católica, religião da maioria dos brasileiros."   Início tardioA pintura passou a fazer parte da vida de Tomie quando o acaso pôs na frente dela o professor de arte e pintor Keiya Sugano, que veio ao Brasil na década de 1950 para expor no Museu de Arte Moderna (MAM/SP). Sugano se hospedou em casas de japoneses - inclusive na de Tomie - e, em retribuição, organizou um grupo de pessoas em torno da arte.   Ricardo se lembra do momento em que a mãe voltou a pintar. "O Sugano sugeria a livre trajetória, discutia questões de arte e técnica." A primeira exposição de Tomie foi com o Grupo Seibi, associação de japoneses na Zona Sul. A estréia individual ocorreu pouco depois, em 1957, no MAM.   Essa paixão pela arte inspirou os filhos. "O trabalho da minha mãe na pintura e do meu irmão na arquitetura foram sugestivos na minha vida", conta Ricardo.   Dedicada e perseverante, Tomie não pára de produzir. Atualmente, se empenha em um projeto especial: uma escultura para Santos, em comemoração aos 100 anos da imigração. Vai repetir o que fez por São Paulo na festa dos 80 anos, quando criou as quatro ondas de concreto que se destacam na Avenida 23 de Maio. Como a artista explicou em 1988, a escultura representa as gerações de japoneses no País. Desde 1968, Tomie é brasileira.

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