Ivan Dias/AE
Ivan Dias/AE

Torá das mulheres

Após enfrentar resistência e até agressão dentro de sua própria comunidade, a brasileira Rachel Reichhardt escreveu pela primeira vez, ao lado de outras mulheres escribas, o livro religioso judaico

Keila Bis - especial para o Suplemento Feminino,

26 de março de 2011 | 17h00

A data 16 de outubro de 2010 foi um grande marco para o judaísmo. Neste dia, foi lida a primeira Torá escrita por mulheres na história judaica. Justamente por elas, que, de acordo com os preceitos da tradição ortodoxa, não podiam ler nem tocar no livro sagrado. O feito inédito se concretizou em Seattle, nos Estados Unidos, na comunidade judaica Kadima, onde se encontrava uma brasileira muito feliz e orgulhosa.

Seu nome é Rachel Reichhardt, uma das componentes do grupo de seis mulheres escribas - duas americanas, uma canadense e duas israelenses - que se uniram pela primeira vez no glorioso dia para costurar os pergaminhos que cada uma escreveu à mão, em uma empreitada que teve início em 2003. "Nós nunca tínhamos nos encontrado pessoalmente. Cada uma escreveu a sua parte da Torá em seu país. Esse encontro foi emocionante. Dentro do judaísmo, o significado disso tudo é uma mudança de paradigma. Nós mudamos a história", explica Rachel.

Uma Torá é composta pelos cinco livros do Antigo Testamento (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) que, de uma forma geral, ditam os ensinamentos básicos de vida para esse povo. A Torá sempre foi escrita, durante 3 mil anos, por escribas homens. Isso porque o judaísmo não permite que uma mulher saiba mais do que um homem ou que ocupe um lugar de destaque. Ela deve ser sempre subordinada a ele.

"Para se ter uma ideia da dificuldade para se tornar um escriba, existem cerca de 4 mil regras. Vinte delas, por exemplo, explicam como formar cada letra do alfabeto hebreu, assim como existe um capítulo inteiro demonstrando como se escreve o nome de Deus", explica Wendy Graff, diretora do Projeto Mulheres Torá, entidade que acreditou, incentivou, organizou e angariou os US$ 25 mil necessários para o projeto.

Rachel foi, portanto, uma das primeiras mulheres judias do mundo todo a conseguir se formar escriba, em um curso específico que aconteceu em Buenos Aires, no ano de 2004. Mas isso foi resultado de uma trajetória religiosa pautada por questionamentos, estudos e dúvidas sobre a relação da mulher com o sagrado no judaísmo. "Na religião ortodoxa, por exemplo, somente os homens usam o talit, um xale com franjas nas pontas, para orar nas sinagogas. Mas na Bíblia não é dito que somente os homens podem usá-lo. Então, eu uso também", conta.

Rachel foi também a primeira mulher a colocar filacterios - uma faixa de pergaminho, com escritos religiosos, que os judeus enrolam no braço e prendem à fronte, ao fazer as orações. "Além disso, a mulher é considerada impura por menstruar. Sendo assim, ela não pode segurar a Torá, que é sagrada. Mas com o tempo de estudo, descobri que o sagrado é absoluto, então, a mulher não tem como deixá-lo impuro."

Devido a esse tipo de comportamento revolucionário, Rachel já foi agredida por rezar no Muro das Lamentações, em Jerusalém, onde somente os homens têm esse direito. "Jogaram pedra, ovo, cadeira em mim. E nesse dia eu estava andando de muletas, pois tinha quebrado meus dois pés. Eu só não fui presa, mas poderia ter sido. Quando fui agredida, pensei: ‘Isso não pode ser religioso. Quem está afastado do sagrado não sou eu, são eles’", lembra.

Questionamentos. Apesar de ter recebido dos pais uma educação ortodoxa, Rachel sempre se sentiu livre para interpretá-la a sua maneira. "Minha filha foi formada em escola ortodoxa desde o jardim de infância até o fim do colegial. Ela absorveu, portanto, os princípios básicos da religião e os adaptou a seu modo. Tanto a sua família materna quanto a paterna são muito conscientes de seu judaísmo, mas sem os exageros da ortodoxia", explica seu pai, Rodolfo Reichhardt, de 84 anos.

Com 51 anos, Rachel, que nasceu em São Paulo e estudou Comunicação Visual na Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado) e Letras na Universidade de São Paulo (USP), é hoje professora de bar mitzvah, que prepara meninas e meninos, de 12 e 13 anos respectivamente, para a fase adulta. Mas ela trilhou um caminho intenso para formar a sua opinião sobre a educação religiosa.

Além de lecionar hebraico em escolas judaicas, recém-formada, ela estagiou em Israel durante um ano, onde se aprofundou na língua. Em 2000, ganhou uma bolsa de estudos para fazer mestrado em educação judaica, na Universidade Hebraica de Jerusalém. "Era a segunda vez que ia a Israel e foi totalmente diferente. No meu grupo de 14 pessoas, a maioria já vivia a linha progressista, a mesma do rabino Nilton Bonder, que eu conhecia. Participei ativamente da comunidade dele no Rio de Janeiro. Ele dá a chance de a mulher estudar e participar da religião", conta.

Para Bonder, uma Torá escrita por mulheres revitaliza uma tradição de 3 mil anos. "Rachel é parte de uma geração que buscou, tanto de forma autodidata quanto por meio de cursos, conhecer profundamente a tradição. Além disso, ela reúne os atributos da coragem, perseverança e criatividade, que a qualificam de forma especial na vanguarda de nossa realidade brasileira. Isso a fez representante de um continente nessa empreitada", analisa o rabino.

Foi na época em que cursava o mestrado em Israel que Rachel teve a oportunidade de fazer o curso de caligrafia judaica - que, mais tarde, lhe seria útil para escrever a Torá. "Este curso nos ensina a trabalhar com as penas, com pergaminho e as letras. Tudo o que era proibido para as mulheres e que eu sonhava em fazer. Mas o professor que se dispôs a me ensinar disse que me ensinaria tudo, menos a escrever o nome de Deus", afirma a brasileira.

Igualdade. Mais tarde, Rachel conheceu, no Canadá, outro rabino que lhe autorizou a, enfim, escrever o nome de Deus. "Como eu trabalho com religião, era muito importante para mim ter essa autorização", explica. Graças a esses rabinos, aos infindáveis questionamentos da brasileira e de suas companheiras do Projeto Mulheres Torá, o judaísmo começa agora a dar os primeiros passos para uma história mais igualitária, em que a mulher caminha ao lado dos homens e não atrás.

 

Livro sagrado

 

Fala-se "a" Torá, pois, na língua hebraica, todas as palavras com terminação em "a" são femininas

 

É escrita da mesma forma há mais de 3 mil anos, com a mesma letra

 

Tamanho: cerca de 48 metros de comprimento

 

É feita em pergaminho de couro de vaca

 

É escrita em hebraico com pena de pato

e tinta orgânica

 

Os pergaminhos são costurados com tendão de animal

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