Torcida e expectativa na cúria de SP

Com olhos colados na TV, membros da Igreja viram com nervosismo a escolha do papa

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h21

O intervalo de cerca de uma hora entre a fumaça branca e o anúncio do nome do novo papa pareceu durar muito mais na sede da Cúria Metropolitana de São Paulo, em um casarão em Higienópolis, região central da capital paulista. Apesar de publicamente a Igreja não se posicionar favorável a um nome, a torcida por d. Odilo Scherer se traduzia nos olhares atentos para a TV, mãos inquietas e um "ahhhhh" decepcionado e risonho quando veio a notícia de que o papa era um cardeal argentino.

Assim que a fumaça apareceu, os padres e bispos que estavam ontem na Cúria começaram a se dividir diante das TVs que há no prédio, acompanhados de colaboradores da Arquidiocese. Mas a concentração final foi na Procuradoria da Cúria, uma sala dominada por uma mesa de madeira, um sofá de couro preto e um crucifixo de madeira no fundo, protegido por um Bíblia. No lado inverso, ao lado da TV, dois retratos na parede: de Bento XVI e do até então papável d. Odilo Scherer - arcebispo de São Paulo.

O clima era de descontração e torcida e o ar-condicionado não dava conta de refrescar com eficácia as 14 pessoas presentes, além da reportagem do Estado. "Acendeu a luz", chamou a atenção o padre Cido Pereira, porta-voz da Arquidiocese. Eram 16h05 e todos os olhos estavam grudados na TV, que mostrava a sacada da Basílica.

A porta abriu, todos se seguraram na cadeira. Padre Cido deu um tapinha nas costas de um amigo ao lado, com um pulo da cadeira. Um longo silêncio entre as 16h10 e 16h11. Ninguém entendeu bem o que o cardeal diácono Jean-Louis Tauran anunciou, além do famoso "habemus papam". Da TV veio a tradução: o escolhido era Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires.

Foi como um grito de gol engasgado. O rosto do bispo Sergio de Deus Borges não escondia a decepção. Com braços abertos, padre Cido falava, em tom de brincadeira: "Um argentino", relembrando a rivalidade do mundo da bola. Todos riam. "É claro que havia no coração dos brasileiros o sonho de um papa daqui", disse ele. "E por ser argentino vai haver muita gozação", completou, aos risos. "Mas é um latino-americano", se convencia.

Na coletiva de imprensa, foi lida uma carta da Arquidiocese que expressava "alegria" em ter o novo papa para conduzir a Igreja "por águas agitadas do atual contexto social". Nas falas, a surpresa. "Não conheço o novo papa. Não saberia dizer qual relação ele tem com os cardeais brasileiros" disse o bispo Edmar Peron. "De fato todos fomos pegos por uma grandíssima surpresa."

Por não o conhecerem, os representantes da Igreja não arriscaram em detalhar seu perfil, mas indicaram que a escolha do nome, Francisco, é um sinal de atenção às questões sociais. "Ter um papa que não tenha saído da Europa foi importante para revelar a catolicidade da Igreja."

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