Tornatore e seu filme mais pessoal

O diretor italiano veio ao Brasil para prestigiar a mostra em sua homenagem e falou do novo Baaria, que está na programação

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

No final de Baaria, ouvem-se diversas vozes, entre elas uma que diz que o artista deve falar do que sabe, deve se manter fiel a suas origens e raízes. Essa voz pertence ao pintor siciliano Renato Guttuso e o depoimento foi recolhido pelo próprio diretor Giuseppe Tornatore. O que Guttuso, que aparece como personagem em Baaria, está dizendo é algo em que Tornatore acredita. "Este é meu filme mais pessoal, não necessariamente autobiográfico", ele informa. Tornatore está na cidade. Estava - ontem, pela manhã. Na véspera, ele participara da coletiva de lançamento da 5ª Semana de Cinema Italiano, uma realização da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura, com patrocínio da Pirelli.

Baaria passa hoje na abertura da retrospectiva dedicada a Tornatore, no quadro da 5ª Semana. Tornatore não estará presente. Ontem pela manhã, ele participou de um workshop com estudantes, na Faap, e à tarde retornou à Itália. Foi sua terceira visita ao Brasil. Em 1987, esteve no Rio, mostrando seu primeiro longa, Il Camorrista. Voltou em 1994 e, em Campinas, participou de outra "semana", na época intitulada de Cultura Italiana. Baaria será distribuído no Brasil pela Paris, que promete a estreia para fevereiro. Os mais afoitos poderão vê-lo hoje, logo após Cinema Paradiso. Será um programa duplo interessante - enriquecedor. Em ambos, Tornatore encara o tempo, o cinema, o desafio de dar seu testemunho sobre a Itália.

Fora o tempo e o próprio cinema, o que os filmes têm em comum para o diretor? "A história de Cinema Paradiso poderia ser um fragmento da de Baaria", explica o cineasta. Há anos que ele perseguia esse projeto - o mais caro de sua carreira e seu maior sucesso de público na Itália, muito maior do que o de Cinema Paradiso, que recebeu o Oscar da Academia de Hollywood para o melhor filme estrangeiro (em 1988). Baaria abriu oficialmente o recente Festival de Veneza. Foi recebido a pancadas. O premier Silvio Berlusconi fez elogios públicos ao longa. Desserviu o longa, que, por isso mesmo, teve críticas restritivas da imprensa italiana (e mundial), presente no Lido. Tornatore nunca saberá se a reação foi ao filme ou ao apoio de Berlusconi.

Ele nunca foi partidário do político. Comunista desde jovem, em seus verdes anos, ele sempre fez - e lhe faz até hoje - oposição. Mas ressalta. "Baaria foi produzido pela Medusa, que faz parte do grupo Mediaset, de Berlusconi. Só para ser fiel ao que ocorreu, tive mais liberdade de expressão fazendo o filme do que, creio, os jornalistas que se acharam na obrigação de atacá-lo." Mas ele não se queixa. Faz parte. "A intransigência é, tradicionalmente, um dos defeitos da esquerda. Venho de um meio liberal, e isso me deu certas regalias de formação. Aprendi a respeitar o outro. Se meu adversário diz ou faz alguma coisa que apoio, não vou contra só porque se trata dele."

Essa discussão está embutida no filme. O filme acompanha várias décadas da história italiana, do ponto de vista de um pastor siciliano que se inscreve ainda jovem no Partido Comunista e acompanha todas as mudanças ocorridas no país até os anos 1980. Lá pelas tantas, uma esquerda mais radical o define como reformista. Seu filho lhe pergunta o que isso significa. Ele diz - "Reformista é aquele que sabe que ao bater com a cabeça no muro você quebra a cabeça, não o muro." Tornatore será ele próprio um reformista? Seu filme custou caro. Até que ponto ele radicaliza na forma, ou não radicaliza, para não perder espectadores?

O diretor reconhece que a questão é pertinente, mas diz que fez o filme que queria, como queria. Ele explica que perseguiu o projeto por muitos anos. Entre roteiro e realização, nem demorou muito tempo - três anos. Mas a preparação, na sua cabeça, foi muito maior. "Pensei tanto neste filme que, na hora de filmar, sabia exatamente como fazê-lo." O título, meio misterioso, refere-se à região em que Tornatore nasceu, à cidade de Bagheria, que ele reconstituiu na Tunísia, para ser econômico. Tornatore gosta de citar uma frase do Príncipe Salinas de O Leopardo, romance de Giuseppe Tommaso di Lampedusa, filmado por Luchino Visconti. Ela diz que o ideal é que as pessoas deixem a Sicília aos 17 anos, para escapar aos seus defeitos. Ele saiu aos 27. Carrega, por isso, os defeitos? "Nós, sicilianos, acreditamos que até nossas qualidades são defeitos." Não será o contrário? Ele ri.

Baaria lança uma nova atriz, Margareth Madè, que nada havia feito antes. Ela se parece muito com Sophia Loren. "Todo mundo me diz isso e Margareth, na verdade, participa atualmente de um telefilme contando a vida de Sophia", ele conta. O ator é Francesco Scianna. Veio do teatro e começa a ser reconhecido na Itália. O fato de ter uma dupla de desconhecidos, ou pouco conhecidos, como protagonistas de um filme tão caro não deixa de envolver certo risco. Ao bater com a cabeça no muro, Tornatore poderia ter rompido a cabeça, não o muro. "Eles foram perfeitos para o que eu queria e isso é o mais importante."

Serviço

5.ª Semana Pirelli de Cinema Italiano

Hoje, 19h, Ah! O Amor..., de Fausto Brizzi; 21h30, A Siciliana Rebelde, de Marco Amenta. Iguatemi Cinemark. Av. Faria Lima, 2.232, 3815-8719. R$ 17

Hoje, 19h, É Possível, de Giulio Manfredonia; 21h30, Tudo Culpa de Judas, de Davide Ferrario

Pátio Paulista Cinemark. R. 13 de Maio, 195, 3823-2875. R$ 10

Hoje, 19h, Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore; 21h30, Baarìa, de Giuseppe Tornatore.

HSBC Belas Artes. R. da Consolação, 2.423, 3258-4092. R$ 8

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