Trabalho com cristais dá Nobel de Química a israelense Shechtman

Um cientista israelense que já teve seu trabalho desacreditado ganhou nesta quarta-feira o Prêmio Nobel de Química de 2011 por descobrir diferentes formas de organização dos átomos no estado sólido.

PATRICK LANNIN E VERONICA EK, REUTERS

05 de outubro de 2011 | 08h57

O trabalho de Daniel Shechtman, que irá receber 10 milhões de coroas suecas (1,5 milhão de dólares), levou à descoberta dos semicristais, com aplicações experimentais em inúmeras finalidades -- dos motores a diesel às frigideiras.

Shechtman descobriu em 1982 que os átomos nos cristais se juntam em padrões sem repetição -- algo como os intrincados mosaicos árabes. Até então, o senso comum dizia que esse padrão teria de se repetir.

"Sua descoberta foi extremamente polêmica. Na defesa das suas descobertas, ele foi convidado a deixar o seu grupo de pesquisas", disse o Comitê do Nobel para a Química, da Real Academia Sueca de Ciências, responsável pela premiação.

"No entanto, essa batalha afinal forçou os cientistas a reconsiderarem seu conceito da própria natureza da matéria", acrescentou a nota. "Os cientistas estão atualmente experimentando o uso dos semicristais em diferentes produtos, como frigideiras e motores a diesel.

O comitê lembrou então que as formas matematicamente regulares, mas infinitamente variadas, são comuns na arte árabe e persa. "Mosaicos aperiódicos, como os encontrados nos mosaicos islâmicos medievais do palácio de Alhambra, na Espanha, e na mesquita de Dar-i Imam, no Irã, têm ajudado os cientistas a entenderem qual é o aspecto dos semicristais em nível atômico."

Ouvido pela Rádio Israel, Shechtman, de 70 anos, se disse "animado" com a homenagem, e prometeu para mais tarde uma nota explicando detalhes do seu trabalho.

O cientista, nascido em Tel Aviv, trabalha no Technion (Instituto de Tecnologia de Israel), em Haifa (norte). Na época do seu principal trabalho, ele vivia nos EUA.

A pesquisa de Shechtman foi inicialmente ridicularizada por muitos cientistas, pois contradizia todos os livros sobre o tema. Um dos seus críticos mais inflamados foi Linus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel. Mas, em 1992, a União Internacional de Cristalografia alterou, com base no trabalho do israelense, sua definição sobre o que é um cristal.

Nas últimas três décadas, centenas de semicristais foram sintetizados em laboratórios, e, há dois anos, cientistas relataram a inédita descoberta de um semicristal natural, numa amostra russa contendo alumínio, cobre e ferro.

(Reportagem adicional de Simon Johnson em Estocolmo; Ben Hirschler em Londres; e Dan Williams em Jerusalém)

Mais conteúdo sobre:
NOBELQUIMICASHECHTMAN*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.