Trabalho de formiguinhas

Foi uma expedição culinária a um país desconhecido. A partir do momento em que d. Brazi e Conde Aquino espalharam os ingredientes pelo balcão, os alunos nem esperaram a aula começar e já se aglomeraram em volta para saber o que era o quê. "Essa é a pimenta que os canibais usavam para comer gente", disse d. Brazi a uma aluna que cheirava uma urubu-quiinha. Tinha também araçá, tucumã, caruru-bravo, farinha de pupunha, tucupi preto, cubiu, banana-pacovão. E formigas, muitas formigas, maniuaras e saúvas - as primeiras, puras e sequinhas; as segundas, em molho de tucupi preto.

O Estado de S.Paulo

11 Junho 2009 | 03h22

"No início da aula fiquei com vontade de pedir uma tradução simultânea", disse a chef Mara Salles, uma das alunas mais perguntadeiras da plateia coalhada de chefs curiosos, entre eles Ana Soares, Neide Rigo, Rodrigo Oliveira, os Novos Baianos, Maurizio Remmert e o anfitrião, Alex Atala. "A gente é estrangeiro no próprio país, né?"

Esse outro País de onde vem a dupla é São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A cidade no alto do Rio Negro, próximo à fronteira com Colômbia e Venezuela, tem a maior concentração de tribos indígenas da América Latina, conta Conde. São 23 etnias indígenas e 23 dialetos - d. Brazi pertence à etnia baré. Alex Atala conheceu os dois in loco em janeiro e agitou a vinda a São Paulo: "O que me impressionou foi ver essa cultura indígena quase intocada, ainda pouco influenciada pelo branco", diz ele, que fez as vezes de assistente de cozinha na aula, logo antes da sua própria, no domingo à tarde.

D. Brazi preparou receitas como a mujeca - uma sopa de peixe engrossada com massa de beiju - e uma entrada de caruru-bravo com peixe piraíba. Já Conde fez pratos como o peixe ralo baniua - empanado e servido com molho de tucupi preto com saúva e purê de banana-pacovão. No fim da aula, todos fizeram fila para provar do banquete rio-negrense. "Nossa proposta aqui é reproduzir um pouco do que a gente faz todos os dias em São Gabriel da Cachoeira", explicou Conde, que há 18 anos é dono do restaurante La Cave de Conde. "Essas coisinhas que eu trouxe para cá, nunca pensei que iam ter essa repercussão tão grande", disse Brazi. "Eu faço tanta coisa melhor, isso aqui não é nem o começo." Ela cativou todo mundo com seu jeito simples e espontâneo de falar sobre seu talento na cozinha. "Seu Atala diz que é muito bom isso aqui, né? Se ele fala isso, quem vai dizer que não?"

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