Tradução vira ''telefone sem fio''

Fala era vertida ao inglês e depois ao farsi ou vice-versa

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

Uma espécie de telefone sem fio foi montado pelo governo para permitir que o presidente Lula e seu colega do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pudessem conversar por três horas, no Itamaraty, além de se fazerem entender nos discursos e na entrevista à imprensa.

A fala de Lula em português era vertida ao inglês por um intérprete e, em seguida, traduzida para o farsi, idioma oficial do Irã. As declarações de Ahmadinejad faziam o caminho contrário.

A ausência de intérpretes do farsi para o português foi a razão desse caminho tortuoso, no qual expressões se perderam ou ganharam sentido menos literal. Mesmo sob essa pequena Torre de Babel, oito documentos foram assinados - todos pouco substanciais.

A confusão mais grave surgiu na entrevista, quando Ahmadinejad mencionou a quantidade de urânio enriquecido a baixo teor que o Irã deverá enviar ao exterior, para receber em troca o combustível para um reator de Teerã, conforme acordo mediado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Para o português, o primeiro número foi 250 quilos, seguido por 1.250 e, depois, por 2.250. O número correto seria de 1.200 a 1.500 quilos.

Depois da confusão dos tradutores, Ahmadinejad iria para o Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) para um debate com estudantes. Mas, como a Polícia Federal foi informada em cima da hora, a programação foi cancelada.

A diretora-geral do Iesb se disse contrária às polêmicas pregações do iraniano. "Os alunos têm que confrontar suas ideias com as dos outros", disse Eda Coutinho. Ela admitiu que a visita poderia desgastar a imagem do Iesb, por abrir as portas a um líder conhecido por posições autoritárias.

A VISITA NA IMPRENSA ESTRANGEIRA

Los Angeles Times

"Lula assume risco ao receber Ahmadinejad no Brasil", alertou reportagem do jornal americano, divulgada ontem na internet. De acordo com o texto, assinado por dois correspondentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "pode perder influência global" ao abrir oportunidades ao líder iraniano. Pela reportagem, Ahmadinejad "está procurando novas oportunidades econômicas", após sofrer sanções comerciais do Ocidente.

El Pais Digital

Reportagem no site do jornal espanhol levantou o debate sobre a "conveniência ou não" de o presidente ter recebido Ahmadinejad em Brasília. O texto ressalta que, durante a visita, houve encontro de cerca de 300 empresários, de ambos os países. O site citou os manifestos que reuniram "dezenas de manifestantes, tanto favoráveis como contrários" ao iraniano. "Lula teve de defender a sua decisão em seu programa de rádio."

Al Jazeera

No site da emissora de TV do Qatar, reportagem indicou que o Brasil tenta ocupar posição de destaque na política do Oriente Médio. O texto lembrou recente visita dos líderes palestino e israelense ao País e indagou: "Mas o que exatamente querem do Brasil?" O autor não levantou hipóteses sobre Mahmoud Abas e Shimon Peres, mas frisou que a intenção de Ahmadinejad é fechar bons negócios, não propriamente negociar a paz.

Haaretz

Em Israel, o portal do jornal Haaretz ressaltou o pedido do presidente brasileiro para que o Irã não seja colocado em isolamento no resto do mundo. Com base em informações de agência internacional, o texto cita as ambições diplomáticas do Brasil e frisa que o presidente Lula "defendeu o programa nuclear iraniano", enquanto o líder do Irã aproveitou a passagem por Brasília para tentar buscar legitimidade para o seu projeto.

El Mercurio

No site do diário chileno, o destaque ao longo do dia foi para os protestos, como os ocorridos no fim de semana, no Rio, contra o "polêmico líder" Mahmoud Ahmadinejad. "Se bem que o foco da viagem é econômico", destacou a reportagem, Teerã busca apoio ao seu plano nuclear. O noticiário citou, ainda, declaração de Lula de que era "uma honra" receber Ahmadinejad e também a passagem do iraniano pela Venezuela e Bolívia.

La Nacion

O jornal portenho, além de noticiar o encontro em seu site, veiculou artigo do cientista político argentino Rodrigo Mallea, no qual ele opina que, diferentemente da Bolívia e Venezuela, o Brasil não tem interesse em uma aliança político-estratégica com o Irã nem comunga com "os postulados radicais" de Teerã. Na avaliação de Mallea, ao receber o iraniano, o Brasil tenta assumir uma posição de maior protagonismo mundial.

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