Transações correntes têm maior déficit em 12 anos

O Brasil registrou em outubro o maior déficit em transações correntes para o mês em 12 anos, refletindo a forte demanda doméstica por bens e serviços importados, em meio a um cenário de crescimento econômico e real valorizado.

ISABEL VERSIANI, REUTERS

23 de novembro de 2010 | 13h20

Os investimentos estrangeiros diretos, por outro lado, surpreenderam e foram os mais elevados para o mês já computados, levando o fluxo acumulado no ano a encostar no volume estimado pelo Banco Central para todo o ano.

O déficit em transações correntes foi de 3,7 bilhões de dólares em outubro, acima do saldo negativo de 3,018 bilhões de dólares visto em igual mês do ano passado, informou o Banco Central nesta terça-feira.

O rombo maior refletiu principalmente uma piora da conta de serviços, cujo déficit de 3 bilhões de dólares veio quase 50 por cento acima do registrado no mesmo período de 2009, de 2,076 bilhões de dólares.

Contribuiu para esse resultado o déficit de 1,256 bilhão de dólares na conta de viagens, o maior para todos os meses da série do BC, iniciada em 1947. O dado chama ainda mais atenção por outubro não ser um mês de férias escolares.

O saldo em conta corrente veio em linha com o esperado pelo mercado. Analistas apostavam em um déficit de 3,725 bilhões de dólares, segundo a mediana de pesquisa feita pela Reuters junto a 15 instituições.

"A deterioração da conta corrente não é de todo ruim, é um reflexo até certo ponto do crescimento doméstico e do investimento", afirmou a estrategista do RBS Flavia Cattan-Naslausky. "Mas no contexto global atual, em que você tem governos tentando conter a valorização de suas moedas, ele (saldo) aumenta um pouco o nervosismo".

Para novembro, o BC previu que o déficit em conta corrente aumente para 4,4 bilhões de dólares, refletindo uma piora sazonal da balança comercial e também tendência de elevação das remessas ao exterior.

Nos últimos 12 meses até outubro, o país acumulou um déficit em transações correntes de 47,987 bilhões de dólares,equivalente a 2,43 por cento do Produto Interno Bruto.

INVESTIMENTOS

Os investimentos estrangeiros diretos no país somaram 6,771 bilhões de dólares no mês passado, ante 1,563 bilhão de dólares em outubro de 2009.

O número veio acima do esperado pelo mercado --5 bilhões de dólares-- e pelo próprio BC, que também havia anunciado a mesma estimativa há um mês.

Segundo o chefe-adjunto do Departamento Econômico do BC Túlio Maciel, nos últimos dias do mês houve uma entrada forte de investimentos. Alguns destaques de outubro foram os setores de metalurgia, minerais metálicos e extração de minerais.

Os investimentos estrangeiros em ações brasileiras somaram 14,536 bilhões de dólares, número impactado por aplicações de 9,593 bilhões de dólares em ADRs, ainda relacionadas à operação de capitalização da Petrobras.

"Dos dois lados do balanço, tanto do lado de transações correntes, quanto no lado do fluxo financeiro de capitais, nós vemos um cenário bastante positivo com a repercussão do momento da economia brasileira", afirmou Maciel a jornalistas.

O déficit do mês passado foi o maior para outubro desde 1998, quando o saldo foi deficitário em 4,959 bilhões de dólares.

(Com reportagem de Luciana Lopez, Ana Nicolaci da Costa e Peter Murphy; Edição de Aluísio Alves)

Tudo o que sabemos sobre:
BACENEXTERNOATUA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.