Trecho do romance Claraboia, de José Saramago, inédito até agora e publicado em Portugal pela Caminho

No Brasil, livro sai em novembro pela Companhia das Letras

14 de outubro de 2011 | 23h13

"Isaura dizia a si mesma que estava louca. A cabeça ardia-lhe, a testa escaldava, o cérebro parecia expandir-se e rebentar o crânio. E a insónia é que a punha neste estado. E a insónia não a largaria enquanto aqueles pensamentos a não largassem. E que pensamentos, Isaura! Que coisas monstruosas! Que aberrações repugnantes! Que furores subterrâneos empurravam os alçapões da vontade!...

Que mão diabólica, que mão maliciosa, a guiara na escolha daquele livro? E dizer-se que fora escrito para servir a moralidade! Decerto - afirmava o raciocínio frio, quase perdido no torvelinhar das sensações. Porquê, então, esta agitação dos instintos que quebravam algemas e irrompiam na carne? Por que não o lera friamente, sem paixão? Fraqueza - dizia o raciocínio. Desejo - clamavam os instintos sofreados, anos após anos desviados e recalcados como vergonhas. E agora os instintos sobrenadavam, a vontade afundava-se num pego mais negro que a noite e mais fundo que a morte.

Isaura mordia os pulsos. Tinha o rosto coberto de suor, os cabelos pegados à testa, a boca torcida num espasmo violento. Sentou-se na cama, meteu as mãos pelos cabelos, desvairada, e olhou em redor. Noite e silêncio."

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