Trechos dos novos livros de Edney Silvestre e Patrícia Melo

Trecho de A Felicidade É Fácil, de Edney Silvestre

28 Outubro 2011 | 21h46

A felicidade é fácil. Basta uma folha de papel e uma caixa de lápis de cor, pensou, quase no mesmo instante em que a primeira bala o atingiu.

O olho e a mente treinados registraram, imediatamente: um homem encapuzado, grande, vestindo uma japona escura, apontando para ele e disparando com a mão esquerda um revólver Magnum de cano longo, saindo da caminhonete preta que acabara de barrar a passagem do Mercedes-Benz, dois carros menores a bloquear qualquer possibilidade de fuga por trás, um sedã preto atrás destes, outros encapuzados saindo dos automóveis menores, todos a correr em sua direção, um, dois, três, quatro, cinco homens, com armas nas mãos, revólveres e pistolas, nenhum deles empunhando nada maior, o que pretendem, o que querem, ele se perguntou, o ombro direito ardendo da bala que o atravessara, apoiando-se na perna esquerda, erguendo o tronco e virando o corpo para o banco onde o menino parou de desenhar e olha para ele com curiosidade e incompreensão, enquanto grita para a criança, sem lembrar-se que ela nada ouve, enquanto grita que se abaixe, que se deite no piso do carro, ao mesmo tempo que vê os homens encapuzados se aproximando em sua direção, só um dos encapuzados atira, o que tem a Magnum prateada de cano longo na mão esquerda, o sujeito grandão que saiu da caminhonete preta, deve ser ele, tem que ser ele, mas o menino não se mexe e Major não o alcança, sentindo o impacto de outra bala, desta vez no ombro esquerdo, deve ser um atirador de elite que não pretende matá-lo, se não teria atirado em sua cabeça, tem pontaria e visão para isso, raciocina, empurrando o corpo mas só conseguindo pegar a mochila verde e preta enfeitada com bichinhos de desenhos animados, ao mesmo tempo que dois encapuzados abrem as portas traseiras do Mercedes-Benz e ele recua no banco da frente, quer pegar a pistola Glock semiautomática que mantém presa na parte de trás do cinto, amaldiçoando-se por não ter feito isso logo, em vez de tentar primeiro salvar o menino, mas o encapuzado de japona escura já está a seu lado, disparando três vezes seguidas a Magnum 3.57 em seu pescoço e nuca.

O menino é puxado pelos encapuzados dos carros menores, tem a cabeça coberta por um saco, é passado ao motorista da caminhonete escura, que o carrega até ela e o empurra para dentro do porta-malas.

O grandalhão da Magnum 3.57 de cano longo joga sobre o corpo inerte do Major uma folha de papel rijo, onde estão escritos dois longos números. Uma seta, riscada com caneta hidrográfica, aponta da primeira fileira de algarismos para a segunda. Com a mesma caneta, do outro lado, está anotada a frase Temos seu filho.

Trecho de 'Escrevendo no Escuro', de Patrícia Melo (editora Rocco), conto de mesmo título

Chamava-se O Sonâmbulo e era minha obra-prima. O estilo era carregado, como uma estrutura gótica, repleto de labaredas, nervuras e criaturas confusas perdidas entre espelhos. Já de largada, sentia-se uma promessa de grandiosidade, de explosão violenta e, também uma necessidade patológica de contenção. E a qualidade literária era inquestionável, eu sabia. Além disso, do ponto de vista científico, o fenômeno poderia abrir frentes inovadoras de pesquisa.

Aconteceu assim: certa manhã, logo após iniciar um tratamento à base de barbitúricos indicados por meu psiquiatra, acordei ao lado de meu bloco de notas repleto de novas sugestões e apontamentos para meu romance emperrado. Não me lembrava de ter escrito nada daquilo, mas o material me agradou. Nos dias seguintes, depois da ingestão do tal remédio, fatos igualmente estranhos ocorreram: telefonei para a minha editora no jornal e elogiei suas pernas; briguei com um catador de lixo no meu bairro por causa de seu cachorro que defecava na praça; encomendei uma pizza pelo diskcook e convidei o porteiro da madrugada para dividi-la comigo em meu apartamento. Estes fatos me foram relatados depois, sem que eu me recordasse de nada. Conversei com meu médico, e foi então que tomei conhecimento da amnésia anterógrada, fenômeno em que há perda de memória de eventos ocorridos logo após a ingestão da substância maleato de midazolam. O psiquiatra sugeriu que eu suspendesse o medicamento. Em vez disso, pesquisei o assunto, me usando como cobaia.

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