Tropas do Brasil são saudadas como ''gente boa'' no Haiti

Moradores de favela fazem elogios e cobranças em português para soldados.

Bruno Garcez, BBC

10 de setembro de 2007 | 06h22

Assim que os militares brasileiros entram na favela de Cité Soleil, na capital haitiana, Porto Príncipe, os moradores os saúdam com o termo no dialeto creole ''''bon bagay'''', que, em tradução livre, significa ''''gente boa''''. Alguns chegam até a arriscar alguns termos em português, que aprenderam com os soldados. Nas diferentes ocasiões em que a reportagem da BBC Brasil acompanhou incursões dos militares pela favela, ouviu com freqüência os haitianos dizerem em português, com sotaque carregado, expressões como ''''zente boa'''', ''''beleza'''' e ''''zangue bom''''. Uma jovem que abordou um dos comandantes brasileiros usou seu escasso português para pedir ''''dinheilô''''. Diante da negativa do oficial, ela acrescentou: ''''ok, depois, depois''''.Em um país que conta com 70% de desemprego e 80% dos habitantes vivem abaixo da linha de pobreza, tais abordagens são corriqueiras por parte dos mais pobres, em especial as crianças.Quando tomam ciência de que estão diante de um brasileiro, muitas vezes assediam-no dizendo, em português, ''''amigo, um dólar, por favor''''. Um menino de pouco menos de 10 anos pediu essa quantia ao repórter e acrescentou, ao apontar para seus quatro amiguinhos: ''''é para dividir''''. Um rapaz, que se identificou como Robertson, disse que ele e os moradores de Cité Soleil ''''estão muito felizes, porque os soldados do Brasil trouxeram a paz à ''Cidade Sol''''. Mas acrescentou, ''''meu problema é que os soldados nunca me deram nada. E as casas daqui ainda estão muito ruins''''. A maior parte das habitações locais não conta com eletricidade, gás ou água corrente. Há verdadeiras montanhas de lixo espalhadas por vários cantos, porque a coleta foi interrompida, uma vez que, até março deste ano, a favela era palco de diversas confrontações violentas entre as forças de paz e gangues que a controlavam. O Exército brasileiro diz que promover assistência social não é uma de suas atribuições no comando da Minustah (Missão de Estabilização da ONU no Haiti, na sigla em francês). Mas afirma ter ido muito além de suas atribuições, ao se envolver em obras de infra-estrutura, como a reconstrução de casas arrasadas por tiroteios, a pavimentação de ruas e a perfuração de poços e até a criação de uma escolinha de futebol. O morador Joseph Jean, que foi empregado pelas forças brasileiras em uma dessas obras, que o Exército qualifica como sendo de ação cívico-social, disse: ''''Eu amo o Brasil, vocês fizeram muitas coisas boas por aqui''''. ONGs locais contam ter recebido no passado denúncias de excesso de força praticado por militares do Brasil contra os habitantes, mas afirmam que a situação mudou por conta do aumento da segurança nas áreas de favelas e das obras de reconstrução realizadas pelos soldados. Pierre Esperance, diretor da organização de direitos humanos haitiana Reseau National de Defense des Droits Humains, afirma ter recebido denúncias de que no passado as forças do Brasil cometeram abusos contra moradores, em ações realizadas nas favelas de Belair e Cité Soleil. ''''Acreditamos que a ONU não responde com rigor quando é implicada em acusações de desrespeito aos direitos humanos. Desde o início deste ano, a situação melhorou muito, com os habitantes das regiões pobres se sentindo livres para circular novamente.'''' Esperance acrescenta que, ''''no passado, quando os soldados intervinham, as vítimas acabavam não sendo os líderes de gangues, mas sim crianças e mulheres grávidas. E as tropas da Minustah nada faziam para auxiliar as vítimas, e isso é grave''''. O coronel Tomás Miné Ribeiro Paiva refuta as acusações. ''''Além de havermos treinado intensamente durante seis meses para esse tipo de operação, para garantir que daríamos tiros certeiros, é importante lembrar que sempre prestamos socorro às vítimas inocentes'''', diz. O coronel Tomás é um dos militares brasileiros que parecem desfrutar de popularidade entre os moradores de Cité Soleil. Quando ele percorre as vielas da favela, muitos sorriem e gritam seu nome. Alguns aproveitam para fazer queixas, como um jovem que disse que a polícia haitiana tentou prendê-lo injustamente. O coronel tranqüilizou-o, dizendo que ele era ''''um amigo dos brasileiros''''. Em Cité Soleil, muitos já se referem ao coronel como ''Tomás Bon Bagay''.Para os militares, o tratamento carinhoso é plenamente justificável. ''''O povo se entusiasma ao ver a reconstrução de suas casas e de sua comunidade'''', comenta o comandante Ricardo Henrique Santos do Pilar. Ele também atribui a popularidade entre os habitantes à ''''personalidade do brasileiro'''' e explica: ''''Ao mesmo tempo em que exigimos o cumprimento da lei, somos flexíveis ao conduzirmos ações sociais. A população reconhece isso e trata nossos oficiais pelo nome''''.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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